Quase Poemas

Cb.19.2.07.

RIO TEMPO


Estou num corpo, que está num barco, que desce um rio.
Saí da fonte para a foz, e estou em meio do caminho.
Para mim, a fonte é o passado e a foz é o futuro.
Se paro ou me volto as coisas se invertem.
Pois a fonte tem águas que ainda não vi,
o que faz que elas sejam o futuro,
enquanto que a foz são águas passadas.
Mesmo quando me movo ao longo do rio,
tendo a fonte como passado, lá estão surgindo novas águas;
portanto, em meu passado surgem novidades.
Mas as novidades não são coisas do futuro?
Se o futuro é a foz, suas águas podem ter passado por mim;
então meu futuro é conhecido, pois é feito de águas passadas.
Oh, meu Deus, minha vida gira como as voltas deste barco,
tendo o passado e o futuro sempre no presente.



13.6.2008

ORÁCULO FALAZ


Quando estou navegando pela vida distraído,
é fácil acreditar que posso conhecer-me;
afinal, eu sou o sujeito, e assim me identifico
em relação ao outro, o objeto; ou outros;
mas, se tento me conhecer, eu me torno objeto;
ainda que de mim mesmo;
e sendo objeto, eu sou o outro;
só que esse outro, que analisa o eu, é que sou eu!
então, toda vez que eu projeto um dado
de mim mesmo para análise,
isto já se torna objeto, já se torna outro,
e eu permaneço incólume, indevassado,
incognoscível; pois qualquer pensar sobre mim
me torna o outro que eu já não sou,
enquanto continuo sendo o eu que sempre flui.



26.6.2008

EU TENHO UM SONHO

Um sonho de poder.
Meu sonho de poder
Era obrigar todas as autoridades,
De todos os poderes,
Em todos os níveis,
A colocarem seus filhos
Em escola pública.

Meu sonho de poder
Era obrigar todo juíz de direito
Estadual ou federal
A abastecer seus automóveis
Nos postos aos quais dessem liminares
De reabertura,
Quando fechados por fraude.


9.7.2008

DIONÍSIO E APOLO

Se somos antes de ser; se temos categorias a priori; se somos uma centelha divina; se temos uma consciência prévia dada por Deus, lá no fundo e tal, esta verdade indemonstrável mas irrefutável, me indica que todo o saber é adquirido pela intuição, e a razão só lhe dá forma. Assim foi na fase inicial do conhecimento humano, e assim deve permanecer no desenvolvimento científico. A razão não é capaz de gerar novos conhecimentos, mas, simplesmente conformar o conhecimento intuitivo. É evidente; basta apenas observar que, quanto mais racional é uma pessoal, mais previsível ela é, e quanto mais intuitiva, mais criativa e genial. Isto não só porque a pessoa que se aferra apenas à razão se torna prisioneira da previsibilidade inerente a essa faculdade, mas, também, porque está fugindo à sua verdadeira natureza.
Viver é melhor que conhecer.



22.4.2009


O SILENCIO E A VERDADE

Jesus calou-se ante Pilatos,
porque a verdade é a origem,
e a origem é o silêncio,
até que deus disse algo,
e algo se fez...


A CIDADE

Sonho com a cidade da minha infância,
com muros baixos e portões abertos,
fechados apenas no mês de cachorro louco.
Agora, os cachorros estão sempre loucos
e saltam aterradores nos quintais,
obrigando todos a terem grades e
muros altos...



3.9.2009

POEMIAS

Eu não sirvo prá amigo,
nem prá companheiro,
muito menos prá correligionário,
aliás, eu não sirvo prá co-
isa nenhuma: sou apenas um indivíduo.
E da minha individualidade
(ou seria individualismo?)
eu não abro mão.

A contradição vivida
é que no exercício da minha
individualidade
(ou seria individualismo?),
eu dou-me o direito
de não ter opinião definida;
tê-la, portanto, dividida.
E o in-divíduo
é algo não divisível.



.90


ECLESIASTES



Vaidade de vaidades, disse o Eclesiastes.
Que proveito tiras tu, ó trabalhador,
Do trabalho com que sempre te desgastaste
Debaixo do sol, a não ser a tua dor?

O sol nasce todo dia e torna a se por
Uma geração vem, outra geração parte
Por mais que pense não se livra do Criador
Filosofia, religião, ciência e arte.

Na calha do tempo se esvai inveja e amor
Seja puro ou pecador, não ilude a sorte
A tragédia com mais furor atinge o forte.

E por mim, que se dane burro ou pensador
Tudo é vaidade, pois que seja como for
Sábio e insensato encontram a mesma morte.





POESIA ARMADA
I
Caíram
as últimas
trincheiras.
Agora
a luta
é só
na poesia.
II
Poetar
entre colunas
de ferro, fumacentas
grades de uma prisão
voluntária.
Poesia
que viaja
no cheiro mórbido
das tochas
transformando ramos verdes
em braços magros
filamentos tristes.
Poetar
ao barulho das máquinas
em formulários frios
que medem produção e custo.
É possível fazer poesia?
Só mesmo poesia-luta
poesia-violência, poesia-raça
poesia engajada
poesia brava, poesia feia
poesia-mudança, talvez.
III
A luta
é pela liberdade
Todas as liberdades
Liberdade até
de Deus-peia
Prá se atar
A Deus-liberdade.



.90

ELE


Ele era carne muita e calor bravo
Brasa quente que enfrenta orvalho frio
Na peleja derrubando ente pravo
Atravessa em si mesmo o baldo rio

Grade sertão, veredas, fundo cavo
Vence fugindo sempre de desvio
Permanece de estranho amor escravo
Dor índia que ilaqueia o desafio

Não fosse sua gente tão confusa
Não fosse ele tão cego de conceito
Na certa soltaria a fala oclusa

E inves de a bala abrir para o desfeito
Buscava além da imagem sua musa
Explodindo a paixão dentro do peito.

.2012

EU POETA?

O poeta senta e escreve
Eu apenas sinto e ouço
A sinfonia dos sabiás
Na hora mágica das cinco.
É muita paz e felicidade
Ainda que não sendo, só estando,
Mesmo que não tendo, só amando.