sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

GUSTAVO FRUET: “ABAIXO O ÔNIBUS; USE O CARRO!”




Não, claro, nosso nobre alcaide não disse tamanha besteira. Ele fez pior: agiu como se o dissesse. Eu votei no Gustavo Fruet. E não tenho como me arrepender, pois a alternativa apresentada nas eleições era pior. Mas, a maneira atrapalhada como ele introduz o cartão-transporte em nosso “jardim suspenso no primeiro planalto” me deixa dúvidas. Não sou um utente diário do transporte coletivo. Apenas fui conscientizado pela brava militância ambientalista dos malefícios do transporte individual. Compromissos no centro da cidade, resolvi aderir deixando o carro em casa. Fui barrado no ônibus: pelo motorista, já que não há mais cobradores. Não aceitou meus reais. “E dólares?” “Também não!” “Euros?” “Não, só o cartão”. “Então me dá um cartão” “Eu não vendo cartão. E dá licença, que o próximo da fila de embarque tem”. Vi-me privado, assim de repente, de um conforto usufruído durante décadas de minha vida: a liberdade de entrar qualquer hora em qualquer ônibus, usando a moeda nacional. Bem, como as duas linhas que fazem meu bairro agora só aceitam cartões, liguei para o milagroso número 156 querendo saber como fazer para adquirir o meu. “Não sei, viu” disse o prestativo atendente, “acho que aquelas bancas do centro da cidade têm”. Mas como eu vou para o centro da cidade? Só com o cartão. E onde eu compro o cartão? No centro da cidade.
Naquele dia mais um automóvel saiu da garagem e colaborou para a lentidão do trânsito.
Eu sou teimoso. Apesar do prefeito Gustavo Fruet odiar (desculpe, talvez apenas ame menos) o meio ambiente, tentei novamente. Num outro dia, fui de carona até o centro da cidade. Só não tive sorte em achar as privilegiadas bancas de revistas que detêm o poder de me vender um cartão. Dirigi-me a um tubo. Para quem não sabe, “o tubo”, ou a “estação tubo”, é uma bela invenção do ex-prefeito Jaime Lerner, que já foi até testada em Nova Iorque. Não foi aprovada, mas, ser testada já é uma honra. Por sorte, no tubo ainda há cobrador. E recebe em dinheiro! Mas, não em cartão, esse terrível ceifador de cobradores. “Você vende os tais cartões?” “Não, talvez no terminal” (outra brilhante invenção do Lerner). No terminal dirigi-me ao preposto da prefeitura, o funcionário que cobra (em dinheiro, não em cartão) entrada para o acesso aos ônibus, ou seja, passagens. “Não vendo. Tá vendo aquela lanchonete lá, ó?” “Lá longe?” “É!”
Na lanchonete comecei a entender a quem interessa o crime. Tenho que convir que dá um certo conforto ao usuário, livrando-o das inconveniências do troco. Agora quem lucra mesmo são as empresas concessionárias – cujos fundadores são todos nomes de ruas e praças --, dispensando um exército de cobradores. E, também os pequenos empresários que vendem os cartões, onde se embute um aumento não admitido das passagens. O cartão custa 3 reais, o que, no caso de compra mínima, representa um aumento de cinquenta centavos por passagem. Cada recarga custa 1 real, o que, no mesmo caso, representa um aumento de quinze centavos por passagem.
Pior foi querer usar o transporte coletivo em pleno dois de janeiro. Usei a última passagem. Entrei no pesadelo dos utentes: na rua, de bolso cheio mas cartão vazio! Procurei a tal lanchonete privilegiada. “Hoje não dá prá fazer recarga. A Urbs tá fechada. Só dia cinco!”
Puxa vida, Gustavo Fruet! Não piora tanto! Você já criou dificuldade para a compra de cartões de estacionamento, os famosos “carnês do Estar”. Vendia-se em todo lugar; agora é um monopólio das lotéricas. Pelo menos com os cartões-transporte, facilita as coisas. Deixa o motorista vender. Ou deixa os cobradores remanescentes nas entradas de terminais e tubos venderem. Ou multiplica os pontos de venda, cára! Senão eu vou ter que solicitar aos senhores políticos que em seus conchavos para as próximas eleições multipliquem as alternativas viáveis para o nosso voto. Estou cansado de eleger o menos ruim.

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