sábado, 23 de agosto de 2014

HISTÓRIAS FAMILIARES DA PRIMEIRA GRANDE GUERRA - 1914-1918 - A saga de Ludwig Göbel



Quem não pensa em fazer um roteiro de automóvel pela Europa? Seja pela sua importância cultural, influenciando o mundo todo, seja pelos laços de ancestralidade que nos unem ao Velho Mundo. Há alguns anos, eu e minha esposa resolvemos realizar esse sonho: programamos um longo passeio de automóvel por vários países europeus. Na bagagem, uma porção de envelopes antigos, a fim de aproveitarmos a oportunidade para conhecer irmãos de nossos avós e primos de nossos pais, que lá permaneceram, apesar dos grandes movimentos migratórios do início do século. Após uma agradável semana em Paris, valeu uma esticada ao Palácio de Versalhes, onde, em seu famoso Salão dos Espelhos, não pudemos deixar de lembrar da assinatura do Tratado que leva o nome do local, e que encerrou o terrível conflito do título, tão presente na história de nossas famílias.
De Versalhes rumamos para Reims, em busca de sua bela Catedral, onde eram coroados os reis da França, e onde se encontra a escultura do "Anjo Sorridente". Fomos brindados com dois espetáculos inesperados, sorte de viajantes. Quando, após um giro pela cidade, adentramos a catedral, deparamos com várias crianças dançando e cantando alegremente em torno de uma tina de água coberta de pétalas de rosas no que parecia ser uma cerimônia de consagração da água que, por certo, seria usada nas várias missas do ano. Enquanto aproveitávamos a última luz do dia para admirar os famosos vitrais de Marc Chagall, um padre veio conversar alegre e efusivamente conosco; fingimos que entendemos e ficamos por ali. Resultado: terminamos a noite assistindo um ensaio "particular" de canto gregoriano.
Dali, partimos rumo a Luxemburgo preferindo as estradas secundárias que nos permitissem a observação dos vários "chateaux", a vista da extensa planície da Champagne -- nesta época colorida pela cultura da canola -- e, pelo lado do interesse histórico, a visão dos monumentos e ruínas preservadas das terríveis trincheiras da Grande Guerra. Deveríamos passar por dentro de Vouziers, uma pequena cidade francesa, mas, como eles realizavam sua tradicional festa da fé ("la foi") e uma das carroças alegóricas estacionara bem em frente à placa de sinalização, continuamos pela estrada que se curvava para o sul. Viajamos uns vinte quilômetros antes de darmos conta do engano. Paramos em um lugar chamado Cernay-en-Dormois, em frente a um monumento em homenagem aos mortos nas batalhas ocorridas na região no periodo 1914-18.
E começamos a nos perguntar o que nos levara àquele lugar: o simples acaso?


Monumento aos mortos da Primeira Guerra, em Cernay-en-Dormois.Existem inúmeros desses monumentos no Norte da França


Conversamos com uma francesa que nos colocou no caminho certo. Retornamos a Vouziers, entramos no cortejo da festa a fim de ultrapassar a cidade. E fomos novamente brindados com a alegria contagiante das crianças, que chegaram a arremessar confetes para dentro do nosso carro.


Imagens da Festa "La Foi" em Vouziers, banda desfiando e crianças em carro alegórico.



Continuando nossa jornada pelos campos da Champagne, observando as pequenas colinas formadas por antigas trincheiras soterradas, assim como as silhuetas de casamatas, algumas da famosa Linha Maginot, nos veio à mente a lembrança dos nossos avós, envolvidos diretamente naquele conflito. A Renate lembrou-se vivamente do seu avô, Ludwig Göbel, pai do seu pai, cuja historia pessoal, no período, segue pari passu o rol das batalhas. Tal como outros ex-combatentes, ele pouco falava de suas experiências de guerra; mas deixara transparecer suficientemente que sua decisão de deixar a Alemanha se dera não só pela difícil situação em que o país ficou após a derrota, como também ante o temor de que seus filhos viessem a sofrer as mesmas privações e dores enfrentadas por ele em combate.


Paisagem da Champagne. Esta região era o front de trincheiras e casamatas durante a Primeira Guerra.



A viagem terminou bem, encontramos vários parentes, tanto na Alemanha quanto na Itália, e reatamos a comunicação interfamiliar interrompida por várias décadas.

Neste ano de 2014, comemora-se em todo o mundo o Centenário da Primeira Grande Guerra. Motivados pelas reportagens e artigos que a imprensa vem fazendo, lá fomos nós pesquisar nos guardados da família, buscando resgatar a participação de Ludwig Göbel no conflito. Na "weltkrieg", como dizem os alemães.

As condições para a Guerra de 14 (como ela foi chamada no Brasil durante muito tempo) vinham sendo construídas há vários anos. A Europa era a senhora do mundo. No Império Britânico o sol nunca se punha. A França possuía colônias em todos os Continentes. A Holanda e a Bélgica -- pequenas em território e população, mas muito bem sucedidas na administração do capital --, dominavam vários territórios há séculos. A Rússia tinha toda a extensão asiática para seu exercício de poder. Apenas o vetusto império central -- a Áustria-Hungria -- e as potências recentemente unificadas -- Alemanha e Itália -- ficavam de fora do banquete. Nada mais natural que estas últimas se unissem na "Tríplice Aliança", em busca de interesses comuns, enquanto que os colonialistas se unissem numa "Entente Cordiale". O acúmulo e o aperfeiçoamento das armas, a formação de vastos exércitos, a crença de que a guerra era um meio válido para solução de problemas políticos, tudo isto construía o barril de pólvora pronto a explodir à menor fagulha. E a fagulha veio de uma área de conflito, os Bálcans, onde se encontravam em jogo interesses da Áustria-Hungria, da Sérvia, da Itália e da Turquia. Um estudante servo-bósnio, Gravillo Princip, assassinou o Arquiduque Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, que visitava Sarajevo, atual Bósnia. As exigências posteriores ao atentado levaram a Áustria-Hungria a invadir a Sérvia; a Rússia a mobilizar suas forças contra a primeira; a Alemanha correr em defesa da Áustria em função das alianças; a França a declarar guerra à Alemanha em função da Entente; a Alemanha a procurar atingir a França pela Bélgica, cuja invasão foi motivo da entrada da Inglaterra no conflito. E o conflito ampliou-se. Todos achavam que a guerra seria rápida: uns três meses, no máximo. Pelo tamanho dos exércitos e a quantidade de armas envolvidas, julgava-se que o primeiro país a impor um bom golpe de força em seu oponente, venceria. Não foi bem assim. Os exércitos se encontraram em batalhas com inúmeras baixas, verdadeiras carnificinas, cavaram trincheiras no barro impondo sofrimentos terríveis aos soldados, e permaneceram num jogo de forças onde a quantidade de mortos não justificava os minguados avanços territoriais, durante mais de quatro anos.

Ludwig Göbel (Ludwig, ou Louis, ambas as formas correspondentes ao nosso Luís), marceneiro de profissão, foi incorporado como um "gardisten" (algo como "infantaria de guarda") em 7 de agosto de 1914, quatorze dias antes do seu vigésimo aniversário. Seu "militarpass" (caderneta militar) é um verdadeiro resumo de toda a Grande Guerra. Integrou uma Garde-Ersatz Division, uma Divisão de Substituição, ou de Reserva. O exército em atividade no momento da declaração de guerra, constituído de tropas bem treinadas, era o responsável pelos ataques iniciais e a rápida ocupação de território inimigo. Os civis convocados, treinados a toque de caixa, formavam o contingente da reserva, utilizados tanto na ocupação como na substituição das tropas abatidas nos primeiros embates. Logo ficou claro para todos que, naquela guerra, não haveria diferença significativa entre as tropas de assalto e as de reserva. A máquina de guerra do Império Alemão avançou pela Bélgica ocupando extensas áreas do Norte da França. Sob o comando do General Moltke chegou a 40 quilômetros de Paris. Mas, por uma série de manobras mal sucedidas, permitiu uma boa reação de britânicos e franceses, e os alemães recuaram vários quilômetros, consolidando uma linha de avanço dentro da França e Bélgica. E o que se iniciara como uma guerra de movimentos transformou-se rapidamente na terrível guerra de trincheiras.
Ao norte, contra os russos, um contingente bem menor garantia o apoio aos austríacos.


Guerra de trincheiras.



Após o treinamento inicial em sua região, o Gardisten Göbel foi integrado no Regimento de Infantaria 221, da 2ª Companhia, colocado em prontidão da região de Lille, França, entre 27 de outubro e 22 de novembro de 1914.
Entretanto, na frente oriental, de maneira um tanto inesperada, os russos começaram a bater nos austríacos, ameaçando, dessa forma, o norte da Alemanha. Como, na frente ocidental, os franceses ainda não ameaçavam território alemão, o Alto Comando viu-se na necessidade de deslocar as forças de reserva para socorrer a frente russa. Alguns historiadores dizem que o General Falkenhayn (substituto de Moltke, que fora afastado por não alcançar o sucesso esperado na Batalha do Marne) recusou-se a fornecer tropas reservas para a dupla de generais Hindenburg e Ludendorf rechaçar o avanço russo, alegando que precisava delas para manter os territórios conquistados na França. Porém, o "militarpass" de Göbel desmente isto. No final de novembro de 1914, ele foi mandado para a Polônia, onde combateu na Batalha de Lask-Pabianice, entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro de 1914. Essa batalha foi precursora da tomada de Lödz pelos alemães. Göbel permaneceu apenas dois meses na frente russa. De volta à frente ocidental, integrou, sucessivamente, os Batalhões de Infantaria nºs. 115 e 168. Em maio de 1916 foi ferido nas trincheiras de Argonne. Sua recuperação ocorreu no hospital de Darmstadt, sede da sua divisão. Ali, trabalhava como enfermeira voluntária, Dora Hermann. Conheceram-se, e iniciaram um namoro.

Fotos de Göbel ferido: na de cima, o de faixa presa pelo queixo; na de baixo, ele é o da direita.




Em foto enviada em 27.5.16, seu companheiro de armas, Diltz, dá-lhe informações do front: "Wagner recebeu uma prótese na boca"... "Agora temos licenças de 6 dias"... "O francês atirou granadas de gás em nosso acampamento, sem perdão"... Esta última informação desmente a crença difundida pelas potências vencedoras de que só os alemães teriam usado a guerra química:
Amigo Diltz.








Em abril de 1917 ele volta à frente francesa, onde se envolve numa série de batalhas. Incorporado ao Regimento de Infantaria 390, participa da Dupla Batalha do Aisne, Champagne, entre 16 de abril e 27 de maio.
Entre 28 de maio e 23 de outubro permanece em prontidão no famoso Caminho das Damas. Este longo período de prontidão permitiu-lhe várias licenças, numa das quais casou-se, em sua terra natal, Eberstadt-Darmstadt, com Dora Hermann Göbel, em 17 dejunho de 1917.


"Militarpass" de Göbel. Capa, identificação e página onde consta sua presença na França e na Polônia Russa no mesmo ano. Veja o detalhe à direita.






Em fins de outubro, quando houve a ofensiva aliada sobre o Caminho das Damas, Göbel lutou nos campos e trincheiras a nordeste de Braye-en-Laonnois.
Com a chegada do inverno, a luta arrefece, permitindo a muitos soldados alguns dias de descanso junto às suas famílias, principalmente nas festas de final de ano.
Mas, a partir da primavera de 1918, o Estado Maior alemão inicia uma grande ofensiva tentando definir os destinos da guerra antes que cheguem os reforços americanos. O jovem Louis envolve-se novamente em combates que durariam até o fim do conflito, em várias frentes, como o Rio Marne, em Soissons, Reims e inúmeros lugares da Champagne.
Quando nasceu Arthur, seu primeiro filho, Göbel encontrava-se em plena atividade na Champagne.
De 10 a 20 de outubro de 1918, participou das batalhas nas margens do Rio Aisne, perto da foz do Aire. Dali, os alemães recuaram para Vouziers, onde Göbel lutou sua última batalha, pois, sua Divisão foi dissolvida em 1º de novembro. A Alemanha, exaurida por quatro anos de guerra e um eficaz bloqueio marítimo, vendo seus aliados capitularem e, tendo que enfrentar tropas novas e motivadas vindas da América, não viu outra saída senão render-se no dia 11 de novembro de 1918.


Páginas do "militarpass" com relação das batalhas e deslocamentos.





A esta altura da história e de nossa pesquisa, descobrimos que o engano cometido em nossa viagem pela França deveu-se mais a essas forças desconhecidas que regem nossos destinos do que a uma simples coincidência: o desvio de caminho que fizemos em Vouziers nos levou a Cernay-en-Dormois, a poucos quilômetros da foz do Aire. A foz do Rio Aire e a Vila de Vouziers: os dois locais onde o Gardisten Louis Göbel, avô da Renate, lutou suas últimas batalhas na Primeira Grande Guerra.


Acima, página do "militarpass" com a baixa de Göbel. Abaixo, a "Cruz de Honra para o Combatente", que Göbel recebeu em 1935.


Certificado da Cruz de Honra para combatente. Criada em 1934 pelo Presidente Hindenburg (por isso também chamada de "Cruz Hindenburg"), em duas categorias (combatente e não-combatente), destinava-se aos alemães que participaram da Grande Guerra.




Clique aqui e veja foto dos soldados alemães cavando trincheiras nas Argonnes.




Com a paz, desmobilizado, retornou à sua profissão de marceneiro. Ele e a esposa Dora tentaram enfrentar os ciclos de desemprego e hiperinflação da República de Weimar. Em 12 de fevereiro de 1920, nasce-lhes o segundo filho, o pai da Renate, também chamado Luis. Mas, eles desistiram da Europa e suas guerras. Iniciaram sua viagem de emigração em fevereiro de 1924 para, finalmente, aportarem em São Francisco do Sul, Santa Catarina, Brasil, em 29 de abril. Fixaram-se no Paraná, onde tiveram mais os filhos Alice, Hilda e Frederico, assim como muitos netos.


Ludwig e Dora quando chegaram ao Brasil. Ludwig em 1939. Foto no último passaporte.



Dora, nascida em 11.1.1896, faleceu em 15.10.1966. Ludwig, nascido em 21.8.1894, faleceu em 7 de novembro de 1973. Ambos estão sepultados no Cemitério do Alto Glória, em Curitiba.
Seus filhos também já se foram... Afinal, esta história já tem cem anos.


(Texto: João Alberto Vendrani Donha
Pesquisa: Renate Gobel Donha)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"LÁ ONDE EU MORAVA"

Assim mesmo, sem vírgula, num sopro só, era como as crianças falavam lá onde eu morava. Uma cidade nova e pequena, à beira de um grande rio e rodeada de plantações, fronteira do povoamento, onde todo mundo vinha de fora. Só os bebês haviam nascido ali. As crianças nas suas rusgas de competição contavam e inventavam histórias começando sempre por este refrão: "lá onde eu morava..." Algum tempo depois, o refrão tornou-se a senha para a descrença.
Eu lembrei disto agora por causa da história que me veio à mente. De lá, de onde eu morava.
Havia um homem inteligente, bem à frente dos outros, preocupado com o presente e o futuro. E como o povo sofria para controlar suas vastas plantações, pulverizá-las eventualmente, expulsar animais depredadores e outras coisas, ele resolveu construir para a comunidade, nada mais nada menos do que... um avião! Dias de trabalho, aplicados diligentemente em sua empreitada e o objeto ficou pronto. Anunciou à população -- pelos meios de divulgação que se pode ter num local como aquele -- e todos se reuniram curiosos em volta de sua obra. Observaram, analisaram, estudaram, testaram, coçaram suas cabeças, e verificaram -- alguns constritos, outros zombeteiros -- que a coisa não voava! Os que o admiravam, certos de que não poderia algo inútil sair de tão brilhante mente, foram empurrando o objeto para o rio, e, assim que o lançaram na água, verificaram, felizes, que ele... flutuava! Alvissareiros notaram que não apenas flutuava, mas que o objeto era, na verdade, um barco muito mais aperfeiçoado que os demais, os quais, próximos à obsolescência, balançavam acorrentados à margem. E o número das pessoas que passaram a servir-se do novo modelo de barco aumentou consideravelmente. Mas, pasmem, para desgosto do seu construtor, que chegava a ficar indignado quanto ao uso que davam para o seu avião. "Calma, rapaz, desfrute de sua invenção, é um excelente barco", diziam as pessoas. Ao que ele respondia que não era barco, pois o inventor era ele, e ele sabia muito bem o que tinha inventado; um avião! O mais estranho é que não faltavam pessoas a concordar com ele; a teimar e argumentar que era um avião, e que os habitantes do lugar deveriam utilizá-lo para voar. O tempo foi passando, as pessoas que adotaram o barco pescavam e navegavam pelo rio, os que o achavam um avião tentavam fazê-lo voar, até que um dia, sentado numa pedra, o inventor observava o rio distraído, quando aproximou-se dele um menino e perguntou: "Então, inventor, é um barco ou não é?" O homem olhou o menino, olhou o rio e as silhuetas das embarcações contra o sol fraco da tarde, e iniciou a resposta: "É... bem... bom... sim... mas...". E mais não disse, pois morreu atingido por um infarto fulminante.

Pouco tempo faz eu retornei "lá onde eu morava". Matar a saudade, antes que ela me matasse. A cidade cresceu, a paisagem mudou, mas o rio está lá. Cheio de embarcações, muitas delas são modelos um tanto modificados do barco do inventor. Estão levando turistas pelo rio, equipes em pesquisas, pescadores em busca do seu sustento diário. Várias pessoas alegres, louvando a inteligência daquele homem que lhes proporcionou tal objeto.
Mas, ao lado da pequena praia fluvial havia um grupo de pessoas sérias, olhando para o rio com expressões ora zombeteiras, ora resmungonas, censurando e criticando os demais, como se navegar fosse uma traição ao inventor do barco. Aproximei-me a fim de ver o objeto que eles cercavam e guardavam. Parecia a invenção original, um pouco desgastada pelo tempo, acrescida de alguns componentes novos, uma turbina, talvez, uma pintura nova.
Contudo... ainda não voa!