quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"ÉS MESTRE EM ISRAEL E NÃO SABES ESTAS COISAS?"



Não pretendia escrever sobre o juiz e a agente de trânsito. Lembro muito bem o conselho de um velho político pé vermelho (gente do Norte do Paraná): "nunca brigue com as pessoas que usam saias". À parte o machismo da época, o conselho também está desatualizado quanto aos usos. As mulheres substituíram as saias pelas pantalonas; os padres, suas batinas por jeans; e os juízes apenas jogam um pano preto de seda nas costas nos momentos mais formais. Na época, o dito servia; e o dizente explicava: "senão poderá ter das mulheres o desprezo, dos padres a excomunhão e dos juízes a prisão".
Bem, daí, surgiu outro caso, este envolvendo um juiz e agentes de embarque. Não consegui me furtar a conjecturas. A tentar divisar o cerne da questão; o móvel que tem a capacidade de retirar os magistrados de suas posturas recatadas e lançá-los na utilização de suas meritíssimas autoridades em causa própria. E tal só pode ser um: o desnudamento. Desnudar alguém deve ser um dos atos mais violentos possíveis. No caso de um rei, torna-se um ato de lesa-majestade. E o maior sofrimento é que a vítima fica nua ante si mesma, antes de o ficar para os outros.
Existe um princípio jurídico universalmente aceito de que a ninguém é facultado alegar ignorância da lei. Claro, se fosse isto possível, nenhum sistema jurídico se sustentaria, pois bastaria ao flagrado em adultério alegar que não sabia estar cometendo um pecado. Os juízes são, em nossa sociedade, justamente as autoridades encarregadas de fazer valer este princípio, e de punir adequadamente quem infringir as leis, sem comiseração pela eventual ignorância do réu. Deve ser, portanto, mais doloroso a eles que aos demais o serem flagrados na infringência desta máxima.
E, não residiu aí a condenação da brava agente de trânsito? Um juiz foi pego em uma blitz com o carro sem placas e sem documentos. Em sua defesa, alegou que nem sabia quanto tempo tinha para regularizar a documentação ao comprar um carro. Bem, a pobre moça, certamente boa cristã, altercou como o mais festejado avatar de nossa civilização ocidental o fizera: "O senhor é juiz e não conhece a lei?". No caso dos agentes de embarque não foi diferente. Nem houve necessidade de qualquer observação dos rapazes. Certamente, ante a insistência do cidadão à sua frente em embarcar atrasado num vôo, lançaram-lhe um olhar tal que o magistrado sentiu caírem-lhe uma a uma as peças da arrogância com que se vestem tais pessoas.
Mas, de tudo isto, aprendemos que o progresso se faz, a despeito de não o notarmos. Jesus, por desnudar os doutores da lei de seu tempo foi torturado e morto por crucificação. Nossa jovem agente de trânsito apenas foi multada em cinco mil reais; e os humildes rapazes do balcão do aeroporto pagaram algumas horas de delegacia.

sábado, 23 de agosto de 2014

HISTÓRIAS FAMILIARES DA PRIMEIRA GRANDE GUERRA - 1914-1918 - A saga de Ludwig Göbel



Quem não pensa em fazer um roteiro de automóvel pela Europa? Seja pela sua importância cultural, influenciando o mundo todo, seja pelos laços de ancestralidade que nos unem ao Velho Mundo. Há alguns anos, eu e minha esposa resolvemos realizar esse sonho: programamos um longo passeio de automóvel por vários países europeus. Na bagagem, uma porção de envelopes antigos, a fim de aproveitarmos a oportunidade para conhecer irmãos de nossos avós e primos de nossos pais, que lá permaneceram, apesar dos grandes movimentos migratórios do início do século. Após uma agradável semana em Paris, valeu uma esticada ao Palácio de Versalhes, onde, em seu famoso Salão dos Espelhos, não pudemos deixar de lembrar da assinatura do Tratado que leva o nome do local, e que encerrou o terrível conflito do título, tão presente na história de nossas famílias.
De Versalhes rumamos para Reims, em busca de sua bela Catedral, onde eram coroados os reis da França, e onde se encontra a escultura do "Anjo Sorridente". Fomos brindados com dois espetáculos inesperados, sorte de viajantes. Quando, após um giro pela cidade, adentramos a catedral, deparamos com várias crianças dançando e cantando alegremente em torno de uma tina de água coberta de pétalas de rosas no que parecia ser uma cerimônia de consagração da água que, por certo, seria usada nas várias missas do ano. Enquanto aproveitávamos a última luz do dia para admirar os famosos vitrais de Marc Chagall, um padre veio conversar alegre e efusivamente conosco; fingimos que entendemos e ficamos por ali. Resultado: terminamos a noite assistindo um ensaio "particular" de canto gregoriano.
Dali, partimos rumo a Luxemburgo preferindo as estradas secundárias que nos permitissem a observação dos vários "chateaux", a vista da extensa planície da Champagne -- nesta época colorida pela cultura da canola -- e, pelo lado do interesse histórico, a visão dos monumentos e ruínas preservadas das terríveis trincheiras da Grande Guerra. Deveríamos passar por dentro de Vouziers, uma pequena cidade francesa, mas, como eles realizavam sua tradicional festa da fé ("la foi") e uma das carroças alegóricas estacionara bem em frente à placa de sinalização, continuamos pela estrada que se curvava para o sul. Viajamos uns vinte quilômetros antes de darmos conta do engano. Paramos em um lugar chamado Cernay-en-Dormois, em frente a um monumento em homenagem aos mortos nas batalhas ocorridas na região no periodo 1914-18.
E começamos a nos perguntar o que nos levara àquele lugar: o simples acaso?


Monumento aos mortos da Primeira Guerra, em Cernay-en-Dormois.Existem inúmeros desses monumentos no Norte da França


Conversamos com uma francesa que nos colocou no caminho certo. Retornamos a Vouziers, entramos no cortejo da festa a fim de ultrapassar a cidade. E fomos novamente brindados com a alegria contagiante das crianças, que chegaram a arremessar confetes para dentro do nosso carro.


Imagens da Festa "La Foi" em Vouziers, banda desfiando e crianças em carro alegórico.



Continuando nossa jornada pelos campos da Champagne, observando as pequenas colinas formadas por antigas trincheiras soterradas, assim como as silhuetas de casamatas, algumas da famosa Linha Maginot, nos veio à mente a lembrança dos nossos avós, envolvidos diretamente naquele conflito. A Renate lembrou-se vivamente do seu avô, Ludwig Göbel, pai do seu pai, cuja historia pessoal, no período, segue pari passu o rol das batalhas. Tal como outros ex-combatentes, ele pouco falava de suas experiências de guerra; mas deixara transparecer suficientemente que sua decisão de deixar a Alemanha se dera não só pela difícil situação em que o país ficou após a derrota, como também ante o temor de que seus filhos viessem a sofrer as mesmas privações e dores enfrentadas por ele em combate.


Paisagem da Champagne. Esta região era o front de trincheiras e casamatas durante a Primeira Guerra.



A viagem terminou bem, encontramos vários parentes, tanto na Alemanha quanto na Itália, e reatamos a comunicação interfamiliar interrompida por várias décadas.

Neste ano de 2014, comemora-se em todo o mundo o Centenário da Primeira Grande Guerra. Motivados pelas reportagens e artigos que a imprensa vem fazendo, lá fomos nós pesquisar nos guardados da família, buscando resgatar a participação de Ludwig Göbel no conflito. Na "weltkrieg", como dizem os alemães.

As condições para a Guerra de 14 (como ela foi chamada no Brasil durante muito tempo) vinham sendo construídas há vários anos. A Europa era a senhora do mundo. No Império Britânico o sol nunca se punha. A França possuía colônias em todos os Continentes. A Holanda e a Bélgica -- pequenas em território e população, mas muito bem sucedidas na administração do capital --, dominavam vários territórios há séculos. A Rússia tinha toda a extensão asiática para seu exercício de poder. Apenas o vetusto império central -- a Áustria-Hungria -- e as potências recentemente unificadas -- Alemanha e Itália -- ficavam de fora do banquete. Nada mais natural que estas últimas se unissem na "Tríplice Aliança", em busca de interesses comuns, enquanto que os colonialistas se unissem numa "Entente Cordiale". O acúmulo e o aperfeiçoamento das armas, a formação de vastos exércitos, a crença de que a guerra era um meio válido para solução de problemas políticos, tudo isto construía o barril de pólvora pronto a explodir à menor fagulha. E a fagulha veio de uma área de conflito, os Bálcans, onde se encontravam em jogo interesses da Áustria-Hungria, da Sérvia, da Itália e da Turquia. Um estudante servo-bósnio, Gravillo Princip, assassinou o Arquiduque Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, que visitava Sarajevo, atual Bósnia. As exigências posteriores ao atentado levaram a Áustria-Hungria a invadir a Sérvia; a Rússia a mobilizar suas forças contra a primeira; a Alemanha correr em defesa da Áustria em função das alianças; a França a declarar guerra à Alemanha em função da Entente; a Alemanha a procurar atingir a França pela Bélgica, cuja invasão foi motivo da entrada da Inglaterra no conflito. E o conflito ampliou-se. Todos achavam que a guerra seria rápida: uns três meses, no máximo. Pelo tamanho dos exércitos e a quantidade de armas envolvidas, julgava-se que o primeiro país a impor um bom golpe de força em seu oponente, venceria. Não foi bem assim. Os exércitos se encontraram em batalhas com inúmeras baixas, verdadeiras carnificinas, cavaram trincheiras no barro impondo sofrimentos terríveis aos soldados, e permaneceram num jogo de forças onde a quantidade de mortos não justificava os minguados avanços territoriais, durante mais de quatro anos.

Ludwig Göbel (Ludwig, ou Louis, ambas as formas correspondentes ao nosso Luís), marceneiro de profissão, foi incorporado como um "gardisten" (algo como "infantaria de guarda") em 7 de agosto de 1914, quatorze dias antes do seu vigésimo aniversário. Seu "militarpass" (caderneta militar) é um verdadeiro resumo de toda a Grande Guerra. Integrou uma Garde-Ersatz Division, uma Divisão de Substituição, ou de Reserva. O exército em atividade no momento da declaração de guerra, constituído de tropas bem treinadas, era o responsável pelos ataques iniciais e a rápida ocupação de território inimigo. Os civis convocados, treinados a toque de caixa, formavam o contingente da reserva, utilizados tanto na ocupação como na substituição das tropas abatidas nos primeiros embates. Logo ficou claro para todos que, naquela guerra, não haveria diferença significativa entre as tropas de assalto e as de reserva. A máquina de guerra do Império Alemão avançou pela Bélgica ocupando extensas áreas do Norte da França. Sob o comando do General Moltke chegou a 40 quilômetros de Paris. Mas, por uma série de manobras mal sucedidas, permitiu uma boa reação de britânicos e franceses, e os alemães recuaram vários quilômetros, consolidando uma linha de avanço dentro da França e Bélgica. E o que se iniciara como uma guerra de movimentos transformou-se rapidamente na terrível guerra de trincheiras.
Ao norte, contra os russos, um contingente bem menor garantia o apoio aos austríacos.


Guerra de trincheiras.



Após o treinamento inicial em sua região, o Gardisten Göbel foi integrado no Regimento de Infantaria 221, da 2ª Companhia, colocado em prontidão da região de Lille, França, entre 27 de outubro e 22 de novembro de 1914.
Entretanto, na frente oriental, de maneira um tanto inesperada, os russos começaram a bater nos austríacos, ameaçando, dessa forma, o norte da Alemanha. Como, na frente ocidental, os franceses ainda não ameaçavam território alemão, o Alto Comando viu-se na necessidade de deslocar as forças de reserva para socorrer a frente russa. Alguns historiadores dizem que o General Falkenhayn (substituto de Moltke, que fora afastado por não alcançar o sucesso esperado na Batalha do Marne) recusou-se a fornecer tropas reservas para a dupla de generais Hindenburg e Ludendorf rechaçar o avanço russo, alegando que precisava delas para manter os territórios conquistados na França. Porém, o "militarpass" de Göbel desmente isto. No final de novembro de 1914, ele foi mandado para a Polônia, onde combateu na Batalha de Lask-Pabianice, entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro de 1914. Essa batalha foi precursora da tomada de Lödz pelos alemães. Göbel permaneceu apenas dois meses na frente russa. De volta à frente ocidental, integrou, sucessivamente, os Batalhões de Infantaria nºs. 115 e 168. Em maio de 1916 foi ferido nas trincheiras de Argonne. Sua recuperação ocorreu no hospital de Darmstadt, sede da sua divisão. Ali, trabalhava como enfermeira voluntária, Dora Hermann. Conheceram-se, e iniciaram um namoro.

Fotos de Göbel ferido: na de cima, o de faixa presa pelo queixo; na de baixo, ele é o da direita.




Em foto enviada em 27.5.16, seu companheiro de armas, Diltz, dá-lhe informações do front: "Wagner recebeu uma prótese na boca"... "Agora temos licenças de 6 dias"... "O francês atirou granadas de gás em nosso acampamento, sem perdão"... Esta última informação desmente a crença difundida pelas potências vencedoras de que só os alemães teriam usado a guerra química:
Amigo Diltz.








Em abril de 1917 ele volta à frente francesa, onde se envolve numa série de batalhas. Incorporado ao Regimento de Infantaria 390, participa da Dupla Batalha do Aisne, Champagne, entre 16 de abril e 27 de maio.
Entre 28 de maio e 23 de outubro permanece em prontidão no famoso Caminho das Damas. Este longo período de prontidão permitiu-lhe várias licenças, numa das quais casou-se, em sua terra natal, Eberstadt-Darmstadt, com Dora Hermann Göbel, em 17 dejunho de 1917.


"Militarpass" de Göbel. Capa, identificação e página onde consta sua presença na França e na Polônia Russa no mesmo ano. Veja o detalhe à direita.






Em fins de outubro, quando houve a ofensiva aliada sobre o Caminho das Damas, Göbel lutou nos campos e trincheiras a nordeste de Braye-en-Laonnois.
Com a chegada do inverno, a luta arrefece, permitindo a muitos soldados alguns dias de descanso junto às suas famílias, principalmente nas festas de final de ano.
Mas, a partir da primavera de 1918, o Estado Maior alemão inicia uma grande ofensiva tentando definir os destinos da guerra antes que cheguem os reforços americanos. O jovem Louis envolve-se novamente em combates que durariam até o fim do conflito, em várias frentes, como o Rio Marne, em Soissons, Reims e inúmeros lugares da Champagne.
Quando nasceu Arthur, seu primeiro filho, Göbel encontrava-se em plena atividade na Champagne.
De 10 a 20 de outubro de 1918, participou das batalhas nas margens do Rio Aisne, perto da foz do Aire. Dali, os alemães recuaram para Vouziers, onde Göbel lutou sua última batalha, pois, sua Divisão foi dissolvida em 1º de novembro. A Alemanha, exaurida por quatro anos de guerra e um eficaz bloqueio marítimo, vendo seus aliados capitularem e, tendo que enfrentar tropas novas e motivadas vindas da América, não viu outra saída senão render-se no dia 11 de novembro de 1918.


Páginas do "militarpass" com relação das batalhas e deslocamentos.





A esta altura da história e de nossa pesquisa, descobrimos que o engano cometido em nossa viagem pela França deveu-se mais a essas forças desconhecidas que regem nossos destinos do que a uma simples coincidência: o desvio de caminho que fizemos em Vouziers nos levou a Cernay-en-Dormois, a poucos quilômetros da foz do Aire. A foz do Rio Aire e a Vila de Vouziers: os dois locais onde o Gardisten Louis Göbel, avô da Renate, lutou suas últimas batalhas na Primeira Grande Guerra.


Acima, página do "militarpass" com a baixa de Göbel. Abaixo, a "Cruz de Honra para o Combatente", que Göbel recebeu em 1935.


Certificado da Cruz de Honra para combatente. Criada em 1934 pelo Presidente Hindenburg (por isso também chamada de "Cruz Hindenburg"), em duas categorias (combatente e não-combatente), destinava-se aos alemães que participaram da Grande Guerra.




Clique aqui e veja foto dos soldados alemães cavando trincheiras nas Argonnes.




Com a paz, desmobilizado, retornou à sua profissão de marceneiro. Ele e a esposa Dora tentaram enfrentar os ciclos de desemprego e hiperinflação da República de Weimar. Em 12 de fevereiro de 1920, nasce-lhes o segundo filho, o pai da Renate, também chamado Luis. Mas, eles desistiram da Europa e suas guerras. Iniciaram sua viagem de emigração em fevereiro de 1924 para, finalmente, aportarem em São Francisco do Sul, Santa Catarina, Brasil, em 29 de abril. Fixaram-se no Paraná, onde tiveram mais os filhos Alice, Hilda e Frederico, assim como muitos netos.


Ludwig e Dora quando chegaram ao Brasil. Ludwig em 1939. Foto no último passaporte.



Dora, nascida em 11.1.1896, faleceu em 15.10.1966. Ludwig, nascido em 21.8.1894, faleceu em 7 de novembro de 1973. Ambos estão sepultados no Cemitério do Alto Glória, em Curitiba.
Seus filhos também já se foram... Afinal, esta história já tem cem anos.


(Texto: João Alberto Vendrani Donha
Pesquisa: Renate Gobel Donha)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"LÁ ONDE EU MORAVA"

Assim mesmo, sem vírgula, num sopro só, era como as crianças falavam lá onde eu morava. Uma cidade nova e pequena, à beira de um grande rio e rodeada de plantações, fronteira do povoamento, onde todo mundo vinha de fora. Só os bebês haviam nascido ali. As crianças nas suas rusgas de competição contavam e inventavam histórias começando sempre por este refrão: "lá onde eu morava..." Algum tempo depois, o refrão tornou-se a senha para a descrença.
Eu lembrei disto agora por causa da história que me veio à mente. De lá, de onde eu morava.
Havia um homem inteligente, bem à frente dos outros, preocupado com o presente e o futuro. E como o povo sofria para controlar suas vastas plantações, pulverizá-las eventualmente, expulsar animais depredadores e outras coisas, ele resolveu construir para a comunidade, nada mais nada menos do que... um avião! Dias de trabalho, aplicados diligentemente em sua empreitada e o objeto ficou pronto. Anunciou à população -- pelos meios de divulgação que se pode ter num local como aquele -- e todos se reuniram curiosos em volta de sua obra. Observaram, analisaram, estudaram, testaram, coçaram suas cabeças, e verificaram -- alguns constritos, outros zombeteiros -- que a coisa não voava! Os que o admiravam, certos de que não poderia algo inútil sair de tão brilhante mente, foram empurrando o objeto para o rio, e, assim que o lançaram na água, verificaram, felizes, que ele... flutuava! Alvissareiros notaram que não apenas flutuava, mas que o objeto era, na verdade, um barco muito mais aperfeiçoado que os demais, os quais, próximos à obsolescência, balançavam acorrentados à margem. E o número das pessoas que passaram a servir-se do novo modelo de barco aumentou consideravelmente. Mas, pasmem, para desgosto do seu construtor, que chegava a ficar indignado quanto ao uso que davam para o seu avião. "Calma, rapaz, desfrute de sua invenção, é um excelente barco", diziam as pessoas. Ao que ele respondia que não era barco, pois o inventor era ele, e ele sabia muito bem o que tinha inventado; um avião! O mais estranho é que não faltavam pessoas a concordar com ele; a teimar e argumentar que era um avião, e que os habitantes do lugar deveriam utilizá-lo para voar. O tempo foi passando, as pessoas que adotaram o barco pescavam e navegavam pelo rio, os que o achavam um avião tentavam fazê-lo voar, até que um dia, sentado numa pedra, o inventor observava o rio distraído, quando aproximou-se dele um menino e perguntou: "Então, inventor, é um barco ou não é?" O homem olhou o menino, olhou o rio e as silhuetas das embarcações contra o sol fraco da tarde, e iniciou a resposta: "É... bem... bom... sim... mas...". E mais não disse, pois morreu atingido por um infarto fulminante.

Pouco tempo faz eu retornei "lá onde eu morava". Matar a saudade, antes que ela me matasse. A cidade cresceu, a paisagem mudou, mas o rio está lá. Cheio de embarcações, muitas delas são modelos um tanto modificados do barco do inventor. Estão levando turistas pelo rio, equipes em pesquisas, pescadores em busca do seu sustento diário. Várias pessoas alegres, louvando a inteligência daquele homem que lhes proporcionou tal objeto.
Mas, ao lado da pequena praia fluvial havia um grupo de pessoas sérias, olhando para o rio com expressões ora zombeteiras, ora resmungonas, censurando e criticando os demais, como se navegar fosse uma traição ao inventor do barco. Aproximei-me a fim de ver o objeto que eles cercavam e guardavam. Parecia a invenção original, um pouco desgastada pelo tempo, acrescida de alguns componentes novos, uma turbina, talvez, uma pintura nova.
Contudo... ainda não voa!


sábado, 7 de junho de 2014

1914-1918 - CENTENÁRIO DE UMA HECATOMBE



A Primeira Grande Guerra -- aquela que, nas esperanças humanas, acabaria com todas as outras --, está completando cem anos. Quando criança, as imagens que eu tinha de uma guerra referiam-se a este conflito; somente na adolescência elas foram sendo substituídas pelas cinematográficas. Isto porque minha querida e saudosa avó materna, Maria de Carli, vivenciou, no front italiano, as consequencias desse desatino em grande escala. Seus relatos, acompanhados pelos olhinhos arregalados da minha mãe e meus tios nas noites paulistas, ao calor aconchegante do fogão de lenha, perduram no imaginário familiar.
No verão de 1914, Maria ainda não havia completado os onze anos. Corria pelas verdes planuras de Pasiano di Pordenone, em direção à Escola Comunal, embalada nos sonhos infantis, ansiosa pelo reencontro com a mestra querida, na esperança de tornar-se, mais tarde, ela mesma uma professora. Em sua casa -- um daqueles típicos sobrados do meio rural --, sua mãe, Virgínia Victor, dava conta dos afazeres domésticos, os quais incluíam a ordenha da vaca e a colheita dos ovos das poucas galinhas, enquanto seu pai, Antonio de Carli, cuidava das amoreiras, com seus vários bichos-da-seda, a nova e promissora fonte de renda da família, além do pomar e do pequeno vinhedo. Maria, a mais velha entre 8 irmãos, ajudava, claro, o papai e a mamãe, na faina diária, conforme os costumes familiares da época, além de sua dedicação aos estudos.
A Itália não se contava entre as nações mais ricas da Europa. Haviam regiões bastante sofridas. Mas, Pasiano di Pordenone, na época Província de Udine, região da Friuli, era um "tra i più avanzati comuni"(1). As associações agrícolas da Friuli do final do Século XIX e começo do XX, inspiradas pelas idéias mutualistas -- que hoje persistem como cooperativistas -- influenciaram uma exploração da terra e do trabalho mais avançada em relação a outras regiões. Empenhavam-se na modernização das técnicas agrícolas, no combate às pragas dos vinhedos, na introdução de novas culturas, como o bicho-da-seda e as orquídeas, desenvolviam cavalos de raça. O comune possuía um "laticínio social", fornos comunitários, uma pequena hidrelétrica, moinho e, ainda, investiam na formação e aperfeiçoamento dos agricultores e na educação popular. Uma empresa de cerâmica produzia azulejos que, tais como outros produtos, eram exportados para outras regiões do país e mesmo para o exterior (1). Enquanto que, a poucos quilômetros dali, na região do Vêneto, mais especificamente no comune de Motta di Livenza, sob condições mais severas, a família do meu avô materno, Pietro Vendrame -- que só viria a conhecer minha avó muitos anos depois, no Brasil -- viram-se obrigados a emigrar, dois anos antes, em busca de melhores condições de vida.
Assim viviam Maria, seus pais, irmãos, primos e tios, até que uns tiros de revólver desferidos por um estudante bósnio-sérvio de 20 anos, a algumas centenas de quilômetros dali, mudou a vida de todo mundo.
O Império Austro-Hungaro -- alemão e magiar, como indica o nome -- dominava povos italianos e eslavos -- estes últimos, os eslavos do sul, ou iugoslavos. E vivia em queda-de-braço com a Sérvia, também eslava, porém independente. Em 28 de junho de 1914, quando o Arquiduque Francisco Ferdinando , herdeiro do Império, visitava Sarajevo -- cidade da atual Bosnia-Herzegovina, na época sob seu domínio --, foi assassinado, juntamente com a esposa, pelo estudante bósnio-sérvio Gravilo Princip. A Áustria culpou a Sérvia e, viu no incidente uma oportunidade de acerto de contas: um mês depois do atentado, e após um ultimatum impondo condições inaceitáveis, invadiu o país eslavo. A Rússia, por ser aliada da Sérvia, declarou guerra à Áustria. A Alemanha, aliada da Áustria, declarou guerra à Rússia. A França, aliada da Rússia, declarou guerra à Alemanha. E a Inglaterra, aliada da França, veio em seu socorro. Pronto, os tiros do jovem Princip deflagraram a tragédia.

Cenas do atentado: O Arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa, em 28 de junho de 1914, saindo da prefeitura de Sarajevo para seu último passeio; Gravillo Princip sendo preso e conduzido pela polícia; O casal exposto no cadafalco.(2)

A Itália não entrou na guerra logo de início. Ela era aliada da Alemanha e da Áustria desde 1882, mas, tinha pendências territoriais com o Império dos Habsburgos. Então, procurou fazer a sua própria guerra, vendendo caro sua adesão a um lado ou outro. Como a Áustria não aceitou entregar-lhe suas regiões de língua italiana, a Itália aderiu aos aliados, em maio de 1915.
A partir daí a vida de Maria e sua família começou a mudar. Os homens -- papai e tios -- foram convocados. Em casa permaneceram as mulheres e as crianças. Os serviços agrícolas mais pesados foram suspensos, os animais começaram a ser abatidos, para o consumo próprio ou para abastecer o exército. A pobreza e a fome foram se instalando.
Considerando o modelo de guerra ainda vigente o melhor campo de batalha ofertado para os dois exércitos era justamente a Friulli-Venezia Giulia. E foi por aí que os italianos iniciaram a ofensiva contra os austríacos: para o nordeste, em busca da ocupação dos territórios de língua italiana. De início avançaram; porém, tal como no front ocidental, logo as coisas estagnaram, as trincheiras foram cavadas e, cada palmo de chão passou a ser conquistado à custa de muitas vidas. Dois anos de intenso conflito, e os italianos optaram por manter-se na defesa das posições ocupadas. Os aliados, que insistiam na manutenção da ofensiva italiana para enfraquecer os países germânicos no front ocidental, castigaram a nova estratégia defensiva retirando sua ajuda em armamentos. Por seu turno, a Áustria aumentara a pressão sobre a Alemanha para que a ajudasse na ofensiva. O resultado foi uma ofensiva das forças alemãs e austríacas sobre o elo mais fraco da defesa italiana, impondo a esta a fragorosa derrota de Caporetto e a retirada trágica do exército italiano em outubro de 1917. A Província de Pordenone sempre esteve no caminho: tanto no avanço, quanto na derrocada.


Derrocada militar após Caporetto


População fugindo do avanço alemão

www.youtube.com/watch?v=AxJ272JzQ90
Sequencia do filme "Adeus às Armas", de 1957, com Rock Hudson, Jennifer Jones e Vittorio de Sica, mostrando a retirada de Caporetto.


A esta altura, as mulheres da família haviam morrido na epidemia de tifo, restando apenas as crianças. Minha avó Maria, com apenas quatorze anos, era a responsável por sete irmãos e sete primos com idade abaixo dela. A única ajuda com que contava era a irmã Amália, um pouco mais nova. Parentes e vizinhos, em grande maioria, retiravam-se caoticamente junto com o exército, temendo o avanço alemão. Os que permaneciam em suas casas, tinham sua própria luta pela sobrevivência. Os invasores sempre têm chifres, orelhas pontudas e pés de cabra. Mas, a maior ameaça, nas derrotas e retiradas, são os desertores.
Sem produção agrícola, com o comércio em desordem, um dia as provisões se esgotam, mesmo se racionadas. Quando isto aconteceu, as crianças juntaram os últimos restos de fubá da despensa, com alguns ingredientes que sobraram, e Maria fez uma suculenta polenta, colocou no centro da grande mesa de madeira, e todos sentaram-se à volta, olhares famintos, esperando que esfriasse o suficiente para ser consumida. De repente, a casa é invadida por dois desertores, igualmente famintos, cobertos de barro, gritam e ameaçam as crianças com suas armas, pegam a polenta como podem e continuam sua fuga inglória O desespero tomou conta das crianças famintas. As grossas tábuas do piso da despensa cobriam um pequeno porão para onde escorriam as perdas dos produtos armazenados. Era o último recurso. Havia uma abertura por onde apenas o mais magrinho de todos conseguia passar. Depois de vários desmaios, ele conseguiu recolher uma quantidade suficiente de farelo que, uma vez separado precariamente da poeira, forneceu uma polenta muito menos apetitosa do que a perdida.
Tempos de penúria. Poucas vezes lhes era permitido serem crianças; como quando à noite se debruçavam nas janelas para observarem os clarões distantes da artilharia: primeiro a nordeste, depois ao norte e, finalmente, a oeste. Diariamente as duas irmãs deixavam os menores no pavimento superior, os mais velhos controlando os mais novos, e saíam pelos arredores em busca do que encontrassem. Certa vez, retornando com a noite iniciada, entraram em casa e sentiram como se tropeçassem em sacos de roupas. Andaram mais um pouco e notaram que pareciam pessoas deitadas; ouviram imprecações numa língua estranha. Apressaram o passo, alcançaram a escada e refugiaram-se em seus quartos. Quando o dia amanheceu, desceram e constataram: um regimento alemão acampara em sua casa! Os temidos diabos verdes estavam ali, na sala, na cozinha, por tudo. Aos poucos foram vendo que não eram nem verdes, nem diabos. Logo veio o intérprete do destacamento avisá-las que a casa e a fazenda haviam sido confiscadas pelo exército alemão, mas que não se preocupassem. Mantivessem, para segurança de todos, as crianças pequenas afastadas das armas e demais aparatos bélicos, que brincassem em locais onde não atrapalhassem a movimentação das tropas, e eles os protegeriam e alimentariam enquanto ali estivessem. Os dias até melhoraram com a fazenda transformada em quartel alemão; se é que existem dias melhores que outros numa guerra.


Avanço dos exércitos alemão e austríaco - mudança da linha do front. O ponto vermelho é a casa da minha avó.


Houve sustos, neste período: afinal, não se consegue transformar uma guerra em veraneio. Como na noite em que fizeram uma comemoração qualquer entre os soldados, da qual as crianças participaram e, quando se recolheram, Maria e Amália, que dormiam na mesma cama, notaram um vulto que lhes aparecia do lado dos pés. De imediato acharam que era o pai delas; possivelmente morto em combate e tentando avisá-las. O vulto insistia em aparecer, como alguém que se levanta e torna a abaixar-se; elas acenderam uma vela e deram de cara com um soldado alemão. Minha avó apanhou uma vassoura e dá-lhe bater no rapaz, que tentava esquivar-se ou aparar os golpes com os braços gritando: "perdon!perdon!"; até encontrar com dificuldade a porta e precipitar-se escada abaixo. Elas se trancaram, choraram, rezaram, até se acalmarem e dormir. No outro dia, assim que desceram foram abordadas pelo intérprete que pediu-lhes desculpas, informando que o soldado bebera um pouco além da conta, errara de direção e acabara em seu quarto. Se elas quisessem, poderiam dar parte ao comandante, mas ele solicitava que o perdoassem e deixassem por isso mesmo. Vendo, ao fundo,o rapaz cheio de hematomas e olhar súplice, perdoaram o ocorrido.
Noutra ocasião, os alemães receberam informação de sua Inteligência de que aviões aliados iriam bombardear seus acampamentos. Rapidamente cortaram todas as amoreiras e mais algumas árvores da fazenda e cobriram toda a casa, construções auxiliares, barracas de campanha e equipamentos bélicos. Mal terminaram, surgiu o pequeno avião: a bomba foi lançada a mais de duzentos metros da casa, formando uma enorme cratera, que se tornaria atração turística por muitos anos. Não se sabe se o que funcionou foi a camuflagem dos alemães ou a precariedade da incipiente guerra aérea. Salvaram-se da bomba, mas à custa das amoreiras, inviabilizando a retomada da produção de seda.
O avanço das tropas alemãs e austro-húngaras foi contido pelos italianos no Rio Piave, poucos dias depois da queda e da retirada de Caporetto. A guerra nesta frente entrou, então, na mesma indefinição que ocorria na frente ocidental, com enorme sacrifício de vidas por ambos os lados, mas sem avanço territorial. Em junho de 1918 os alemães tentaram definir as coisas com uma ofensiva que durou oito dias e terminou com a vitória dos italianos. A partir daí, os italianos tomaram a ofensiva e em outubro iniciaram a batalha de Vitório Vêneto, derrotando as forças alemãs-austríacas e vingando Caporetto. A Itália, praticamente, decidiu a guerra, pois com o esfacelamento das forças das potências centrais na frente italiana, a Áustria viu-se obrigada a assinar um armistício com os aliados, ensejando a estes a invasão da Alemanha pelo seu território. Esta possibilidade convenceu a própria Alemanha a assinar o armistício em 11 de novembro de 1918, terminando o conflito que passaria à história com o nome de Primeira Grande Guerra.
Ao retirar suas tropas da casa dos De Carli, o comandante alemão pediu a Maria e às crianças que posassem para uma última foto, dizendo: "Se eu chegar vivo em casa quero mostrar à minha esposa o que mais me tocou nesta guerra: uma criança cuidando de quatorze crianças!"
Cerca de dez milhões de mortos custara o desatino. Porém, a lição ficaria, diziam políticos e intelectuais, nunca mais haveria guerras. Não? Vinte anos depois teria início outra, a Segunda, que terminaria com mais de cinquenta milhões de mortos!
Mas, por ora, a paz era festejada. Os exércitos desmobilizados. Os aliados, nas reuniões de Paris, obrigaram a Itália a diminuir suas pretensões em favor da Sérvia; mesmo assim, incorporou o Trentino e Trieste ao seu território. Os homens retornavam em grupos às suas casas. As mulheres e crianças ficavam nas portas e portões ansiosas, esperando noticias. Maria, seus irmãos e primos, viram um grupo de homens conversando animadamente enquanto caminhavam pela Via Racolta. No portão da pequena propriedade, um deles, barbudo, cabeludo e sujo, separou-se dos demais e entrou. As crianças se encolheram com medo, traumatizadas com as experiências dos últimos anos. Um deles gritou: "É papá! É papá!" Correram todos ao seu encontro, parando ante seu enfático aviso: "Párem, não cheguem perto, estou cheio de piolhos! Preciso de banho e tesoura, depois abraços!"
Neste ponto, a história de Maria desliga-se da história geral, tornando-se apenas uma saga familiar.
Os dias se passaram, a terra e a economia arrasadas ofereciam poucas perspectivas. Meu bisavô casou-se de novo, nasceu-lhe mais um filho. No início dos anos vinte resolveu tentar a sorte no Brasil. Numa fazenda de Vila Bonfim (hoje Bonfim Paulista), em Ribeirão Preto, Maria conheceu Pietro e casaram-se em outubro de 1923. Ela e sua madrasta engravidaram quase ao mesmo tempo. Ela, esperando minha mãe, Virgínia, e a madrasta, esperando o tio Giuseppe, último filho do meu bisavô. Mas, a madrasta não se acostumou no Brasil, onde seu bebê nascido na Itália, Marino, contraiu paralisia infantil. Então, antes mesmo do nascimento da minha mãe, meu bisavô e os demais filhos voltaram para Itália. Como bom italiano, saiu de cena dramaticamente, dizendo à minha avó: "Quando partirmos, pode imaginar que estarão passando dez caixões por aquela porta, porque nunca mais nos veremos!" Não foi bem assim. Amália também havia se enamorado de um imigrante: Agostinho Amadio. Ela seguiu para a Itália com a família, esteve por lá uns nove anos, ajudou a criar os dois menores, teve vários pretendentes, mas voltou para o seu Agostinho. Casou-se por procuração, uma vez que naquele tempo mulher solteira não viajava sozinha.

Enfim, Maria de Carli e seu esposo Pietro Vendrame (conhecido como Pedro Vendrame, tal como nos documentos brasileiros), em foto "oficial". Eles passaram a maior parte de suas vidas em Birigui-SP, tiveram sete filhos e muitos netos. Foi homenageada pela Câmara de Vereadores com seu nome em uma rua da cidade: no bairro Residencial Pedro Marin Berbel, uma rua antes denominada "Marginal 2", passou a chamar-se "Rua Maria de Carli Vendrame". Grato pela homenagem, senhores vereadores. (3)



(1) Conforme a publicação "L'agro pasianese in una cronaca del 1912", de Emanno Contelli, Edizioni La Quercia, 1982.
(2) Todas as ilustrações sobre a guerra foram retiradas da publicação "História do Século XX", Abril Cultural, 1974.
(3) Antiga foto do acervo familiar.

P.S. De Carli Antonio, acompanhado de sua segunda esposa, Pilot Albina, mais os filhos Maria, Domenica, Amelia, Tereza, Adele, Antonio, Rosa, Umberto, Primo, Irma, Secondo e Marino, mais o irmão, De Carli Lorenzo, embarcaram no vapor "Príncipe de Údine", em Gênova-Itália, em 27 de maio de 1921, desembarcando em Santos-Brasil em 13 de junho do mesmo ano. Passaram pela Hospedaria do Imigrante, em São Paulo, que os encaminhou para a fazenda Pau Alto, de propriedade de D. Iria Alves Ferreira, em Vila Bonfim, Ribeirão Preto, onde se instalaram no dia 15 do mesmo mês. Retornou à Itália no segundo semestre de 1924, deixando no Brasil apenas a filha Maria.