sábado, 15 de dezembro de 2012

Recebi um e-mail solicitando minha assinatura de apoio contra o Projeto de Emenda Constitucional-PEC que reduz os poderes dos promotores. Não assinei. Não sei se é inteligente dar aos promotores, que têm a missão de acusar, o poder de também investigar. Recentemente a mídia mostrou um caso nos EUA onde o cidadão passou 25 anos preso (cumpria perpétua) acusado de matar a esposa, perdeu a guarda e as visitas do filho que aos 18 anos mudou até de nome. Ele foi salvo por essa ONG que os americanos criaram justamente para rever esses casos. Exame de DNA e outras coisas demonstraram não só a inocência do cidadão, como apontaram o verdadeiro culpado, localizado porque estava no banco de dados, uma vez que HAVIA MATADO MAIS UMA MULHER. E a condenação havia acontecido porque o promotor do caso escondeu duas provas que poderiam levar os jurados a absolver o cidadão. Hoje, o promotor é juiz, pediu desculpas pelo ocorrido, mas não escapará de uma investigação. Isto ocorre por quê? Ora, porque não podemos dar excessivos poderes e liberar de controle social nenhuma pessoa ou corporação. O promotor, ser humano como qualquer um de nós, não foge às injunções da vaidade, da competição, do desejo de ganhar quando no embate contra um advogado. Se ele investiga e, ao mesmo tempo, vai competir com o advogado pelo resultado final, dificilmente permitirá gol contra, sem dúvida não avisará o árbitro que cometeu uma falta contra o adversário, ou que pôs a mão na bola durante o jogo. Então, para segurança do cidadão contra o poder das corporações, vamos dividir as coisas: um investiga, outro acusa, outro julga. Ponto. Nunca, porém, os reducionismos radicais: que se atribua ao promotor o acompanhamento pari passu da investigação; assim como, se solicite ao delegado que acompanhe a finalização do processo. Um servidor fiscaliza o outro; ou, em âmbito geral, uma corporação fiscaliza a outra. O cidadão dorme mais tranquilo. Porque, se somos pródigos em acusar e exigir punição para os casos que acompanhamos pela mídia, nada impede de um dia sermos colhidos nas malhas do engano e das evidências conectadas erroneamente.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

INDIVIDUALIDADES

Se alguma coisa a vida me ensinou é que, em relação aos seres humanos não devemos nos iludir com nenhuma uniformidade. Em qualquer grupo desses que se costumam separar as pessoas (os magros ou gordos; os brancos, negros ou outra tez; os comunistas ou outros istas; os religiosos ou ateus; os deste ou doutro gênero, etc.), teremos sempre um grupo heterogêneo, pois a diversidade é consequência da individualidade, e esta é um caráter inalienável do ser humano. Assim, mesmo unidos por uma idéia, particularidade ou comportamento, teremos no grupo sempre os mais liberais e os mais conservadores, os mais discretos e os mais escrachados, os simpáticos e os antipáticos, os gentis e os grossos, os humildes e os arrogantes, enfim, uma diferença na igualdade que nos torna outros em necessidade permanente de associação. Em relação à própria particularidade que nos una, teremos uns mais engajados que outros, os que a consideram autóctone ou alóctone, os que a tenham congênita ou adquirida, os que a achem feia ou bonita, certa ou errada e, ainda, os que a possuem toda ou em parte...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O STF AO VIVO.

O que mais me impressiona em julgamentos de repercussão, como este do Mensalão, é a transparência da nossa Suprema Corte. Os homens estão lá, acertando, errando, se retratando, sendo julgados pela população do país, como se fossem "réus por profissão". É bem isto: hoje em dia, com a exposição na mídia, o juiz julga enquanto é julgado pela opinião pública. Ele julga alguém que eventualmente, por ter sido acusado de algo, torna-se réu; porém, ele próprio, fica exposto permanentemente como um "réu sem acusação", apenas pela profissão que adotou. É bem verdade que em tempos passados o juiz também era julgado pelas suas decisões; mas, o era pela crônica, ou mesmo pela história, enfim, com a batata já esfriada, a emoção acalmada. Hoje, ao menos no Supremo, ele enfrenta ao vivo e em cores, durante o momento mesmo de sua manifestação, as atenções críticas de doutos e simples. Será que existe dentre os países do mundo alguma outra Corte Suprema que age desta forma? É, podemos nos orgulhar de nosso STF. Se essa instituição comete seus erros, uma vez que seres humanos a integram, ela, porém, reinicia diariamente seus trabalhos amparada por uma grande acerto: a transparência.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

MINISTROS JOAQUIM BARBOSA E GILMAR MENDES DORMEM DURANTE DISCURSOS DA DEFESA

Deu na mídia. Não lhes parece que eles já têm a condenação no bolso, por isso podem relaxar e dormir durante a exposição da defesa? Este julgamento me lembra o "Processo da Revolução", filme francês que trata de outro, o do Danton e amigos. No filme, Danton chega a ficar afônico de tanto falar, e faz um brilhante e contundente discurso, que nada adianta porque já estava condenado politicamente pelo todo poderoso Robespierre. Hoje, Robespierre é a grande imprensa. Se a repetição da história for fiel, nossa grande imprensa se candidata ao mesmo fim de Robespierre. E o povo que, com medo da liberdade, luta nas ruas para que lhes tirem o direito de votar em quem o queiram e passem a promotores e juízes a incumbência de "protegê-los" por uma tal de "lei da ficha limpa", aplaude o circo. Valha-nos Deus!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

AGORA O MERCOSUL FICOU ILEGAL

E, não vai demorar nada para o Paraguai conseguir denunciar, com sucesso, esta ilegalidade em todos os foros internacionais. Pois os regulamentos da instituição preconizam a aprovação de novos membros pelos parlamentos dos integrantes. A Venezuela foi acolhida sem a aprovação e, agora, com a desaprovação do parlamento paraguaio. Acho que nossos apressados diplomatas não chegarão à temerária e inconsistente afirmação de que o parlamento paraguaio seja ilegítimo, uma vez que foi composto em eleições livres e democráticas.

domingo, 1 de julho de 2012

MALEPENSÊNCIAS

Compadre meu Melequem (isso mesmo: Me-le-quem! Contrário até no nome do compadre Quelemem, do Riobaldo, aquele menino do Rosa; compadre Quelemem era um bom sujeito, segurava seu pupilo nas rezas e devotices. Meu compadre é mau, prefere desdevotices), mas, ia eu dizendo, meu compadre Melequem, outro dia, chegou-se a mim com esse desvirtuamento de uma famosa frase do Rui -- aquele, o Barbosa --: "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem só pode chegar a uma conclusão: Deus é o chefe dessa malandragem toda". Mas não fica só aí os malefícios do meu compadre Melequem. Se chega também com perguntas insinuantes, como esta: "O que seria de Deus se não fosse o Diabo?" "Pois é", completa ele, "você acha que Deus teria esse prestígio todo, com tantas rezas, devotos, altares e igrejas, se o povo não vivesse acossado com medo não só do Demo, como também dos seus redutos efervescentes?" E, como toda insinuação maldosa, vai germinando nas circunvoluções cinzentas alheias as blasfemices próprias, eu já começo a elocubrar que se não fosse o pecado original, coisa do Dito Cujo, que serpenteou-se para a incauta Eva, não teríamos essa libidinagem toda que gera filhos, e não existiriam o pastor Soares, nem o Bispo Macedo, nem mesmo o Papa Bonitinho, portanto, Deus não teria nem toda uma população de adeptos crentes, nem seus fiéis representantes apascentadores. É, quem tem um compadre como o meu vive a um passo do inferno!

domingo, 17 de junho de 2012

CURITIBA DE TODAS AS ÁGUAS.

Quem bebe desta água não vai embora ou, se for, volta. Não é o que dizem de todos os lugares onde vivem dizentes? Não seriam diferentes os falares dos curitibanos. E qual seria esta água que uma vez bebida não se deixa: a de piraquara, a "toca dos peixes" dos bravos tinguis? Mas, todas as águas que do chão bebemos do céu caíram. E, ao capricho dos ventos, nem sempre caem de onde evaporam. Viajam. O céu tem seus rios caudalosos, variando suas margens, desabando em cachoeiras de chuvas que mudam constantemente de local conforme os encontros das massas quentes ou frias. Essas inconstâncias todas, tornam as águas daqui, as mesmas águas dali. Curitiba, como "tem as quatro estações do ano no mesmo dia", ou "tem apenas duas estações -- inverno e rodoferroviaria --", porque, literalmente, se encontra onde "o vento faz a curva", é o recanto onde mais chove ao sul do equador, alternando constantemente o frio e o calor, a seca e a assustadora umidade do ar, numa multipolaridade climática que, sem dúvida, se reflete no humor nosso de cada dia. Temos todos os humores, todas as etnias e todas as manias, porque bebemos de todas as águas. Assim, não precisamos de elucubrações teóricas psicanalíticas, antropológicas ou neurocientíficas para explicar nossas alternâncias entre a euforia e a depressão. Basta olharmos o pêndulo das águas que caem do céu. Se o baixo astral vem no começo do inverno, quando o susto da primeira frente fria nos entoca no aconchego da família, e passamos semanas saboreando os suíços fondies ou nos empanturrando dos pinhões nativos, basta dizer: são as águas antárticas. E se, alguns dias depois, cansados desse internamento forçado, invadimos os salões dos clubes na esperança de aprendermos tangos e boleros, basta diagnosticar: são as águas argentinas. Para, logo depois, quando o resfriado chega, as roupas não secam e o bolor toma as paredes, entrarmos em uma depressão salobra porque uma frente fria vinda do oceano venceu as do sudoeste, basta constatarmos: são as águas atlânticas. Finalmente, quando o ano chega ao fim, e o sol radiante se insinua, e tiramos os brancos braços das mangas, e nos espraiamos alegres nas calçadas das choparias, apenas para sermos expulsos pelos aguaceiros das tardes quase quentes, basta nos deliciarmos ouvindo as bicas que não cessam e nos consolarmos pensando: são as águas amazônicas.

sábado, 9 de junho de 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

POBRE TERCEIRA REPÚBLICA!

Dias atrás foram o Cesar Peluso e o Joaquim Barbosa lavando roupa suja na janela.
Agora, é o Gilmar Mendes destemperado, agindo como fera acuada (para um interlocutor -- ou espectador, que é a única posição permitida a nós cidadãos nesta ré-pública -- inteligente não há nada menos convincente do que o exagero num bom argumento). Quem não deve não age desse jeito.

Concordo com a opinião do meu deputado na Gazeta do Povo:

[Mesmo ressalvando que não baterá boca com Mendes, o deputado André Vargas (PR), secretário de Comunicação do PT, achou “estranha” a versão do magistrado sobre o encontro. “Por que Lula iria falar com um ministro que foi indicado pelo PSDB e não com os oito que ele indicou?”, questionou. “E por que Mendes só divulgou essa conversa um mês depois, às vésperas do depoimento de Demóstenes Torres no Conselho de Ética?”]

Acrescente-se a estas dúvidas mais algumas.

Por que a manifestação tardia do ministro saiu na Veja, revista que só não está atolada até o pescoço na lama do Cachoeira porque revista não tem pescoço?

E por que a grande imprensa repercute tanto as falas do ministro, se as outras duas pessoas que estavam com ele na sala desmentem o que ele diz?

Mais, e o laudo do perito Mauro Nadvorny concluindo que o ministro mentiu em sua desequilibrada entrevista supostamente denunciativa, por que foi abandonado na versão escrita da Folha?

E depois, para um ministro da mais alta corte do país, chamar de bandidos investigadores que o flagraram nu, atirar contra um país que mantém laços diplomáticos e comerciais com o Brasil, como é a Venezuela, não estaria a demonstrar uma destas três coisas, senão todas: um desprezo muito grande pelas instituições que o sustentam, uma intenção golpista, ou um sofrimento mental que está a solicitar ajuda profissional?

Enfim, com esse judiciário nós, indefesos cidadãos, estamos, como dizia o Chico Anísio, nas mãos de Deus... e Ele treme!

sábado, 26 de maio de 2012

Repetindo a foto do "palmito galhado".



Palmeira juçara, em minha chácara, na rive gauche do Rio Cachoeira. Fenômeno teratológico ou mutação?

domingo, 13 de maio de 2012

A JUSTIÇA DOS SONHOS!

Esta semana a justiça brasileira se superou:
deu uma liminar de fechamento da Caixa Econômica,
e outra liminar de abertura da boate Kalahari.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

MIA COUTO

Mia Couto, que delícia!
De início temi pela ousadia: retrazer Rosa tão intenso... vai aguentar?
Depois vi que não é pastiche. É a mesma musa-alma da poesia em prosa, fluente como as águas do Chico ou do Jequitinhonha, que voou corajosa desde a banda oeste do Atlântico até o calor do Índico, encontrando os mesmos sertanejos nas mesmas e intermináveis guerras, sempre prelúdios de paz interna, calmante, serenidade de vida...

Mia Couto reforça minha convicção de que no universo lusofônico se produz filosofia na literatura: e tão profunda quanto despretensiosa.

Como é rica e fecunda a literatura de língua portuguesa: sempre nos surpreendendo com o novo remoçado e o velho renovado no dínamo da atemporalidade.
Eu parei na metade a leitura do Mia Couto, a modo de ir fruindo devagar, deixando um pedaço prá mais tarde, na fé de não acabar nunca.
Como fazia na infância, com o trocado do primeiro sapato engraxado abordava a mulher da cesta e comprava uma suculenta geléia de mocotó e comia metade guardando o resto prá comer aos pedacinhos a fim que a gostosura durasse na boca a manhã toda.

ESTÓRIAS ABENSONHADAS
Mia Couto
Companhia das Letras

domingo, 22 de abril de 2012

O ECOLOGISTA CAÇADOR

O Rei Juan Carlos, da Espanha, sempre foi tido por todos como exemplo de homem íntegro, honesto, comedido, e um grande avalista da democracia e da ecologia. É o presidente honorário, no seu país, da WWF, uma das mais famosas ONGs conservacionistas.
Foi flagrado caçando elefantes e búfalos no Botsuana, onde, aliás, é permitido.
Fiel à sua imagem de homem bom, o Rei humildemente pediu desculpas, e foi perdoado pelos seus súditos.

Será que os nossos paladinos da ecologia -- sejam os militantes, os acusadores ou os julgadores --, também não dão lá suas caçadinhas nas milionárias reservas que eles protegem ou administram? Afinal, não são reis mas, sem dúvida, o trazem na barriga...

sábado, 21 de abril de 2012

SAUDADES DA PIMBA

O Requião, quem diria, recebeu um atestado de boa conduta da gangue do Cachoeira.
Sim, porque xingamento de bandido é elogio.
Enquanto que o Richinha, enfant terrible, foi flagrado prometendo mudar a lei das loterias. Esse menino vai longe...

Se bem que, eu gostava da PIMBA! Todo dia via o espetáculo dos aposentados correndo em direção à lotérica do bairro, apostar seus trocadinhos no joguinho viciado.
Depois que o Requião fechou o negócio do Cachoeira, não os vejo mais. Devem estar sedentários e deprimidos, "vendo a vida mais vivida" que vem da tv a cabo.

SUPREMO E CIDADANIA

Em minha opinião de cidadão (portanto, opinião insignificante neste país refém das corporações) o Cezar Peluso e o Joaquim Barbosa são dois esquentadinhos: quando supõem que seus egos inflacionados foram arranhados perdem as estribeiras e a responsabilidade, ofendendo a nação e amarrotando a toga que deviam preservar.
Por que não deixaram suas diferenças e destemperos verbais para o pós-aposentadoria?
O que ficaria bem numa auto-biografia, detona uma instituição se dito quando na ativa.

terça-feira, 17 de abril de 2012

DEU NO JORNAL

Agentes dos EUA levaram 20 ou 21 mulheres para hotel, diz senadora

"Fato teria ocorrido durante o encontro da Cúpula das Américas, ocorrido na Colômbia na semana passada. Má conduta de agentes do governo e militares está sendo investigada".

Pobres americanos. Não estão familiarizados com as línguas do sul e, certamente, entenderam que se tratava de um encontro de Cópula.

domingo, 15 de abril de 2012

PRESIDENTA DILMA

Quem acha que, para haver o feminino "presidenta", deveria também existir um feminino "estudanta" e um masculino "jornalisto", é porque nunca reparou que as línguas naturais não têm um mecanismo lógico de formação das palavras. As palavras e suas desinências são consagradas pelo uso, além do fato de que elas entram na língua em momentos e circunstâncias diferentes, sofrendo influência de suas origens. Senão vejamos.
Eu tenho um amigo que tem três filhos: um é geólogo, outro é biólogo e outro é astrólogo... opss!... Desculpe, cára: é astrônomo!
Tem uma obra na esquina de casa onde trabalham um carpinteiro, um pedreiro e um brasileiro... Ou serão três bolivianos?
E que negócio é esse de fazer o plural das palavras terminadas em "ão", ora em "ães", ora em "ãos", ora em "ões"?

quinta-feira, 29 de março de 2012

O CATÃO DE CALÇAS CURTAS

Não se sabe ao certo a origem da expressão "foi pego de calças curtas".
Talvez se refira à infância, num tempo e lugar onde os meninos eram obrigados a usarem calças curtas até ao início da puberdade, quando então se lhes premiavam com calças compridas. Como a criança se defende da opressão dos adultos dissimulando, escondendo e muitas vezes mentindo, ao flagrarem um adulto agindo assim, passaram a dizer que ele fora pego de calças curtas. Uma expressão humilhante, pois, o que é engraçadinho num menino, torna-se patético num adulto.
Outros dizem que a expressão tem origem no fato de que as roupas de baixo são curtas; então, o pobre coitado é pego antes que tenha tempo de levantar as calças. Tudo indica que a expressão se referia, ao menos na sua origem, aos homens, os cuidadores, nos tempos idos, dos espaços externos e seus adendos.
Acredito mais na primeira versão, pois a vejo até nos filmes americanos sobre os romanos.
Os legionários, militares, quase sempre jovens, e mesmo os jovens civis e os escravos, aparecem com suas tanguinhas reveladoras das vigorosas pernas, enquanto que os senadores, os senhores mais velhos, aparecem com suas elegantes túnicas protegendo-se das humilhações do tempo cruel.
Assim aparece o venerável Catão, o Censor, símbolo da retidão e da incorruptibilidade através da história. Nos filmes e peças desfila sua respeitável túnica escondendo as pernas carentes da massa que estacionou na cintura, impedindo que se torne caricata sua figura austera.
Muitos Catões tem produzido nossa República. Senhores distintos, chamando-se sempre de "excelências", com ternos bem cortados e de bom tecido, gravatas chamativas, bradando da tribuna ou do plenário contra os outros, os adversários políticos, os que sempre estão com a mão na cumbuca -- olha aí outra expressão necessitada de investigação histórica.
Faz nove anos que o governo treme ante o dedo em riste dos nossos Catões, cobertos pelas túnicas azuis dos democratas ou sociais-democratas. Mas, diz outro dito popular, quem aponta o indicador para alguém está sempre a apontar outros três dedos para si mesmo.
Um dos nossos nobres e excelentes Catões, o Senador Demóstenes Torres, foi pego de calças curtas -- ou de túnica curta, ou, ainda, de tanga --, pedindo dinheiro a criminosos. Pior, usando o velho expediente de solicitar a transferência de investigadores inconvenientes.
É, Senador, você foi pego como criança; cuidou tanto das calças alheias que se esqueceu das suas. E os seus amigos, seguramente todos também de calças curtas, o abandonam às feras. Mas, não se deprima, nobre Demóstenes. Todos os homens têm, um dia, que arriar as calças para alguém, ainda que seja no famigerado exame de próstata. O que não pode é ser tão lerdo a ponto de levantar as calças somente depois que o doutor já abriu a porta.
Parece que chegamos mesmo aos tempos em que todo oculto será revelado. Afinal, "apocalipse" não quer dizer "revelação"?
Que se cuidem os demais Catões.

sábado, 3 de março de 2012

HOJE É O HOUAISS; AMANHÃ QUEM SERÁ?

O Ministério Público Federal quer proibir o Dicionário Houaiss, um dos melhores da língua portuguesa, sob alegação de que a obra contém referências "preconceituosas" e "racistas" contra ciganos. Um pouco de luz nesses procuradores e enxergariam a classificação de "pejorativa" na acepção questionada. Acontece que todos os dicionários do mundo procuram registrar todas as acepções dos vocábulos, as consideradas padrão, as mais usadas, as regionais e, também, as pejorativas.
Sob protesto, a editora e a família do Houaiss concordaram com a vergonhosa censura: retiraram do dicionário as acepções pejorativas.
Pensam que os procuradores se deram por satisfeitos sendo vitoriosos nessa que é a mais abjeta das ações, a censura? Não. Querem a censura total. Alegam que o dicionário cometeu crime de racismo, e querem sua morte, sua extinção, sua retirada de circulação. Além disso, querem que a editora pague uma multa milionária pelo "delito".
Já pensaram, termos que viajar para Angola ou Moçambique quando quisermos adquirir um bom dicionário de português, tal como os argentinos sob a ditadura militar tinham que viajar ao Brasil para adquirirem livros sobre psicanálise?
Os militares-censores argentinos, que ontem eram promotores e juízes daquele povo, estão hoje no banco dos réus, execrados pela história.
Será que se eles lerem esta notícia na solidão de suas celas, não poderão pensar, a respeito desses nossos procuradores: "Nós somos vocês amanhã?"

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ELIANA CALMON

Parabéns à Ministra Eliana Calmon, corregedora do CNJ, vitoriosa em sua luta para que o Judiciário seja uma instituição da sociedade, ao invés da sociedade ser uma posse do Judiciário. Definitivamente, este século é das mulheres, essa metade de nós apartada durante tanto tempo das decisões políticas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A SAGA DOS BRASIGUAIOS

Nos anos 60 e 70 os países do cone sul da América Latina eram dominados por ditaduras irmãs, patrocinadas pelos países do bloco capitalista, que temiam o avanço dos países do bloco socialista. Em virtude dessa rivalidade e a guerra fria entre esses dois blocos, o Papa chamou a atenção para um "terceiro mundo". Em consequencia, um dos blocos passou a ser chamado de "primeiro mundo", e o outro simplesmente "bloco socialista" (a alcunha "segundo mundo" ficou estranhamente desprezada). Pois bem, o pessoal do "primeiro mundo" batia suas panelas nas cabeças dos ditadores patrocinados, exigindo comida, ainda que fosse para o gado. "Tanta terra ociosa e não produzem nada! Trabalhem, mandem-nos soja, senão tiramos a palha!" Assim estimulado o Brasil resolve crescer a taxas que chegaram a impressionantes 14% ao ano, o que exigia muita produção de energia. Como o rio Paraná tinha um enorme declive -- aliás, um só não, sete: eram Sete Quedas --, resolveram represá-lo e movimentar a maior hidrelétrica da época. O problema apresentado com a inundação das terras paraguaias seria facilmente resolvido entre irmãos. - "Eu entro com o dinheiro da obra (afinal, os bancos estrangeiros têm tanto que até emprestam), os engenheiros, operários, e o que mais for preciso; e você entra com as terras; em troca, metade da energia é sua; como você não usa, vende de volta prá mim". - "Bom negocio; só que eu quero produzir soja nas férteis terras da margem direita do Paraná, hoje cobertas por uma densa e selvagem floresta; afinal, eu também tenho o direito de agradar os nossos patrocinadores, como você faz com seu extenso território". - "Então faça!" - "Mas meu povo não sai do chaco, traumatizado com as bandeiras paulistas do século XVIII". - "Bem, eu vou ter que desestimular (eufemismo para "arruinar") um monte de pequenos proprietários de terras, nos meus Estados do Sul, a fim de entregar a área para os grandes produtores de soja, e vai me sobrar um monte de italianos". - "Então manda bastante italiano prá mim, para o lado de cá do rio". - " Tá bom; vai uns alemães e portugueses de quebra". Assim surgiram os "brasiguaios". Essa italianada toda, "convidada" pelos militares paraguaios e "estimulada" pelos militares brasileiros, passaram a Ponte da Amizade (mui amigos), afugentaram as onças e derrubaram a floresta (atitude bastante elogiada em todo o mundo e até heróica, para a época), e transformaram o Paraguai num dos principais exportadores de soja. Os militares paraguaios, matreiramente, para manterem o controle e uma fonte permanente de propinas, enrolaram para dar os títulos definitivos das terras aos italianos; aliás, ítalo-brasileiros; aliás, agora "brasiguaios". Mas, como esse pessoal queria era terra para trabalhar e dar conforto às suas famílias, tudo ficou por isso mesmo, e todos iriam viver felizes para sempre se... a coisa não mudasse. Mudou. O "primeiro mundo" resolveu que agora era bonzinho e humanista, retirou os patrocínios, as ditaduras cairam, e foi instaurada, no cone sul, a... demagogia! Os demagogos paraguaios, como os brasiguaios não votam, voltaram seus olhos gulosos para os votos dos guaranis do chaco -- agora encorajados pela leve melhoria de situação promovida pelos dividendos da exportação da soja --, e convenceram esse povo que os brasiguaios são "invasores", e que suas boas terras, agora domadas e cultivadas, podem lhes pertencer graciosamente; basta invadí-las e expulsá-los (ou, até matá-los, como já fizeram). Os demagogos brasileiros (substitutos, tal como os demagogos paraguaios, dos militares na nova irmandade), fizeram vistas grossas. E os brasiguaios ficaram órfãos. Serão espoliados e expulsos, vindo engrossar nosso contingente de sem-terras e sem-tetos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012