domingo, 9 de abril de 2017

SOBREVIVENDO (Mais um conto gratuito; este, de 1979)





Vai Lino, Tião ou Severino, vai. O corpo jogado prá frente, andando ao impulso do peso da enxada nas costas. Vai, é tarde. Olha... Não: "óia", que lindo menino! Chama os meninos que correm em volta junto aos cães que lhes compartilham a vida. "Olha o Sol, crianças, que lindo! Amarelo, cor de ouro, vai se pondo, pro Japão!" A roça vai bem, obrigado. Mais três dias fica pronta a arruação. Majestosa a natureza em volta. Cortante o sentir no coração. Coração? As coisas da roça, as coisas de casa. Casa? O Linim, o Tiãozim, o Severinim, o caçulim enfim, como será que tá passando? Oh! Criança. Como pode? O dois grandes tão bons, fortinhos, uma certa saúde. Tá na cara, nem se comparam com as crianças do patrão. Ô, homem danado pra criar filho forte sô! Mas os grandes são fortinhos. Não precisa muito médico não. Falar no patrão, Seu Dotôpatrão vai precisar contratar mais gente prá colheita. Só um homem e duas crianças não dá. A mulher não pode ajudar, o pequeno não deixa. Esse pequeno! Nasceu bonitinho, chorandinho, toda a vizinhança veio ver. Seu Manoel, gente boa, batizou. Assim, de repente, foi magrando, não dorme, só chora. Seu Manoel, gente boa mesmo, emprestou a carroça e ficou com os grandes pro pequeno ir no médico. Outra gente boa! Tá sempre com os bolsos do avental cheios de remédios, amostra grátis, vai soltando, vai sorrindo, distribuindo. "Vitamina, amigo, vitamina. A criança tá fraca, precisa comer". E não come? "Como não come? Gumercinda tem teta, doutor! Güentou dois, ali, ó, até três anos". Mas a verdade é que a criança nao vai, vai morer, Lino, ou vai morrer, Severino, ou vai morrer Tião, pelo jeito. Seu Manoel, gente sábia, tem livro, já falou: "Não tem leite na Gumercinda, ou Madalena, ou Bastiana, compadre. O menino tá mamando no seco". "Como não tem leite se güentou dois? Olhei, compadre Seu Manoel, olhei noutra noite mesmo". "Então, olha de manhã. Raia o dia, olha nas tetas da Gumercinda, ou Bastiana, ou Madalena". Seu Dotôpatrão não tem desse problema, né Tião? Só vem no sítio ver o resultado da colheita, plantação. Filhos com rostos corados, gordos, bonitos, brincalhões. Engraçado, não brincam com os seus, né Lino, ou Severino? Não chupam laranja, só jogam um no outro, estragando. Acabam com o pomar. Seus grandes limpam tudo depois, arriscando tétano nas garrafas quebradas. Não dão bola prás crianças que ficam olhando tanta alegria sem entender como pode o mundo parecer bom. Tratados como toco de pau na roça. Escola, vão na escola. Pergunta prá um dos seus, Severino, pr'aquele ali, que vai correndo, driblando cascavel, jararaca, coral, urutu-cruzeiro, que quando não mata aleija, pegunta que é escola. "Sei não, sei não". "Seu Dotôpatrão merece, trabalhou muito, juntou dinheiro, tem sítio. Ocasião vi as crianças dele prontas pro baile de carnaval, que lindas! Que casa!" Casa? A casa, o rancho, esperando na sombra da tarde. A bacia prá lavar o pé, a mesa de pau, os sapos saindo de baixo da casa prá chiar, prá croar, croar. Beleza a natureza! O café folhado, cheinho de frutas quase amarelas, quase. A Lua! não é que a lua vem surgindo trazendo junto as estrelas? Aqui na roça estrela é nítida, brilhante, bonita, sem luz atrapalhando. Na cidade, as crianças, no carnaval, beberam seu suor, Tião, dançaram, quem sabe, sobre seu corpo. "Noite bonita, hoje tiro a diferença". Na porta Madalena esperando, ou Bastiana esperando, ou Gumercinda esperando. Triste, com o menino que não melhora. O menino! Seu Manoel, gente velha, fala certo. "Olhei de manhã: sequinha. Como sequinha, se de noite tava cheia e o pequeno não mamou?" "É isso, compadre, é isso. O pequeno tá mamando no seco. Só pode ser o Demo que..." "Demo? Cruz-credo, Seu Manuel! Vira essa boca, sô!" "O Demo, meu filho. O Demo, o Capeta, o Coisa-Ruim, seja lá que nome tenha, tá mamando na tua mulher. Você tem que tocaiar ele. E, sem demora, é pelo teu filho". E agora, amigo; e agora? Prá bom caboclo não tem coisa mais temida que Ele, o Ele. Mas, pelo filho... pelo filho homem vira bicho brabo. Bela tarde, poucas nuvens inofensivas, não tem cara de chuva. "Mesmo se chove, hoje eu tocaio o Cão. Seu Manoel me deu as regras: dois paus de cedro em cruz, só isso resolve contra o Pé-de-Cabra. Cedro sobrou da reforma da tulha. Mas só nisso não fico não, que não sou homem de confiar muito em simpatia. Pego também a espingarda do cara da beira do rio, ele empresta". Isso Lino, isso Tião ou Severino, sentado na soleira da porta, a família recolhida e você de tocaia. A espingarda de chumbo, que explode, Tião, que explode, na mão. À espera do Terno-Preto. É tarde, a noite, os grilos, a natureza em ritmo, o sono. O sono tem que vir, a cabeça pender, dormir. De repente! Acorda, caboclo, ao peso de um peso na perna estendida! O que é? Olha prá cima, tremendo, esperando encontrar-se com a cara do Cão: nada! Olha prá baixo... meu Deus! Você queria ser cego nesta hora, né, Lino? Já viu bicho maior que este? Cascavel, jararaca, sei lá. Dois metros? Por aí. Você de perna estendida imóvel no umbral: é feitiço, Severino, do tinhoso. A cobra nojenta se arrasta livre e sozinha pro quarto. Segue-a Tião, ou segue-a Severino, ou droga, segue-a Lino. A pegajosa adentra o quarto como quem sabe, e começa a escalar o caixão que serve de perna de cama. Enfia-se a comprida pela combinação da Bastiana, ou Gumercinda, ou Madalena. A pobre da velha, vai ver que encantada pelo bicho, já vira. O basbaque do homem plantado na porta assiste ao que nunca quis ou pensou assistir. Veja, Tião, ela procura os peitos! E mama, Severino, primeiro num, depois noutro, Lino. Que fazer, se qualquer ação pode assustar a úmida, e assustada envenenar a encantada? A maldita, saciada, retorna pelo mesmo caminho, gosmando ousadamente seu pé, cabra danado! E a coragem, amigo, e a coragem, irmão? Você imóvel vendo a bicha arrastar-se prá fora, impune: é feitiço. O cedro impotente. Lembra, Lino, da simpatia do crente! Lembra! Como é mesmo? "Sangue de Jesuis!" Isto, grita isso! Grita! E a imobilidade se desfaz ainda a tempo de alcançar com uma carga de chumbo a excomungada na soleira da porta. Acordam mulher, filhos, vizinhos, cães, cavalo, sapos e galinhas, a ponto de verem a capeta da cobra se torcendo, se morrendo. "Taí, mulher, taí compadre, agora o pequeno vai tê o que mamá".




Este conto foi publicado pela primeira vez na antologia "Os Desconhecidos", da Editora Beija-Flor, Curitiba, 1979)

quinta-feira, 2 de março de 2017

O BAR (Outro conto gratuito)



Era um bar na saída para o mundo, ponto primeiro das novidades, fossem notícias ou mercadorias antecipadas pelos viajantes das distribuidoras. Era o primeiro sorvete e a última pinga ou último lanche dos sitiantes que tomavam a vila nos sábados, com suas carroças, jipes e montarias. Mesmo afastado, sobravam-lhe algumas famílias passeando nas tardes e noites quentes em busca de um copo de refresco, uma casquinha de massa ou um picolé de limão. Sobravam-lhe, também, alguns dos bebedores diários de cerveja, ou sobravam-lhe alguns dias desses bebedores de final de tarde, numa conversa sem fim, nas mesas de ferro ou em torno à sinuca.
Vivia bem o Gervásio: camarada remediado. Vivia feliz com sua Madá, ambos chegados nas primeiras derrubadas, vindos lá dos confins do Jequitinhonha, onde conheceram jaguncismo e cangaço, dos quais lhes sobraram as armas e a incumbência de limpá-las de vez em quando e usá-las menos ainda. Ele era desses tipos brancos, meio vermelho e sardento, seja por uma ameaça de albinismo ou um gene perdido daqueles holandeses que por lá estiveram; não muito alto se bem que acima da média. Ela, por outra, tinha a cor firme, dourada, da miscigenação, e as formas sedutoras mal escondidas pela saia justa e camisa de botão, apesar das três crianças que lhes completavam a família e a felicidade. E ajudava no bar, a Madá; com o pequeno grudado na saia, pois o de quintal no quintal estava, e o de rua na própria, ou na escola ou fazendo a tarefa.
Com o crescimento da cidade, o movimento aumentando, o Gervásio comentava com as gentes a necessidade de um ajudante. Que fosse bom, obediente, trabalhador e, claro, honesto; de resto não importava religião, raça ou política. Não demorou se apresentasse seu Antonio trazendo o filho meio contrariado de abandonar a roça, onde o trabalho duro era compensado pelo banho de rio, as caçadas e pescarias. Agora já livre do exército, o sítio nas entressafras, é hora de viver na cidade; se preciso for, sempre tem volta. Conhecidos de longa data, era freguês da última pinga do sábado; sem nunca reparar no moço. Aliás, todos se conheciam de data tão longa quanto possível num lugar novo daquele. Descendente de italianos, veio de mais perto: bastou viajar alguns quilômetros com a família e os poucos móveis na carroceria de um caminhão, atravessar de balsa o Paranapanema, mais um pouquinho de chão e estavam no pequeno sítio comprado da companhia colonizadora. A lida da roça serenada, mato esquecido, cafezal produzindo discreto, podia dispensar o filho.
Pouco tempo depois o bar já estava caminhando em nova rotina. O jovem servia as mesas, ajudava no balcão, preparava os pastéis, coxinhas e ovos cozidos. A Madá podia dispensar mais atenção aos pequenos e até atualizar as visitas das comadres. Gervásio observava a animação do moço, carregando engradados de bebidas, arrastando sacos de mantimentos, os pés nas alpargatas e a calça de roceiro entrando pelas nádegas redondas e salientes, lembrando Madá quando a viu pela vez primeira nas barrancas do Jequitinhonha, o saudoso rio. Era um menino bonito, o filho do seu Antonio, a força bruta de mão com a delicadeza, parecia moça forte. E o rio na cabeça convidava: agora podia dar umas fugidas com os amigos, armar barraca na beira do Paranapanema, voltar com uns tantos dourados para acompanhar a cachaça da freguesia; o plano se delineia.
O moço ocupa um quartinho roubado da despensa, com porta para o quintal, vizinho do banheiro. Nas tardes mornas, quando o sol parecia preguiçoso de ir-se embora, o moço se dava um descanso antes da correria da noite e ouvia a carretilha descendo o chuveiro e a Madá temperando a água; quietava e curtia o banho gostoso, o barulho da água descendo e levando o sabão das formas doces, das partes sagradas da cabocla bonita do patrão. O patrão ele ouvia no final da noite, faina encerrada, banho à luz do lampião, ensaboadas mais duras, água caindo e espirrando forte do corpo, crescendo nele, neles, os pensamentos e antecipações dos regaços da mulher da casa.
Decidiu-se pela pescaria. Madá e o moço tocavam o negócio. Dias e noites na beira do rio com os amigos; até esquecia o bar. Um descanso merecido, e com saldo de peixes para encher a geladeira.
Voltou adiantado.
Noite alta, chega de mansinho, intenção de não acordar ninguém, mormente quem ficou com as lidas da casa e do bar, onde arriou as traias e os peixes, caminhou mais adentro e ouviu um ruído estranho vindo do quarto, porta entreaberta descuidada, a cama rangendo fraco, a luz da lamparina mostrando o traseiro branco do italianinho subindo e descendo suavemente no meio das pernas torneadas e sedutoras da Madá. Essas coisas acontecem. Não se sabe direito como, mas acontecem. Depois, ninguém lembra como começa. Uma troca de olhares, um esbarrão, um gracejo, uma carícia roubada, um beijo, a insinuação, o convite, a oportunidade. Gervásio ficou ali parado, pasmo como um basbaque, sem saber se dava corda à indignação ou se curtia mais um pouco a visão do adãozinho em pêlo balançando os glúteos de redondice bifurcada como dois seios sem bicos. Mas a macheza do sertão falou mais alto na sua cabeça em fervura e foi às armas, sempre prontas, por costume. Esbarrou no trinta-e-oito, mas na pressa ou na inconsciência, pegou mesmo o trinta-e-dois, e com ele em punho entrou gritando no quarto, assustando o casal que saltou, ela de um lado bradando o tradicional "não é bem isso", e ele procurando desesperado a tramela da janela, quando duas balas acharam antes suas costas e o moço caiu inconsciente. Sobraram os dois, se encarando, ele com a arma quente e ela com os olhos estatelados esperando sua vez de pagar pela ofensa ao mandamento sexto. Dez segundos mostraram que a raiva só inspirava dois tiros. "Pensa nos filhos" ela grita. E ele pensou. Balbuciou duas vezes "sua... sua...", e avisou que ia dar no pé, fugir do flagrante, daí dois dias conversavam, ela ia ver, e foi. Madá correu para o cúmplice, pensando nas providências, mas nem precisou pensar muito porque os vizinhos, ouvindo os estampidos, chamaram o barbeiro, delegado calça curta. E este vendo vida na vítima, colocou num jipe e levou para o único hospital da cidade, onde tiraram o médico da cama, talvez também de seu folguedo conjugal, a fim de salvar mais um baleado.
E o dia amanheceu em paz, como diz o poeta. Porém, não muito.
O bar fechado, motivo de força maior, e a Madá parada na esquina do hospital querendo notícia do paciente, indecisa entre a vergonha e o sabor da fama inesperada, pois a cidade não falava em outra coisa. Foi operado, há que esperar, parece que vai tudo bem, vamos ver.
Dois dias depois, abre o bar um Gervásio absolvido dos cornos por lavar a honra em sangue, como exige o código das fronteiras, apresentado ao delegado que lavra a ocorrência e resolve esperar as coisas acontecerem antes de mandar o boletim viajar quarenta quilômetros, de lamaçais nas chuvas e areiões nas secas, até a sede da comarca. Não tem flagrante, trinta-e-dois não mata, deixa estar para se ver como é que fica; por enquanto, só é presa a arma do crime.
Mas a Madá segue fazendo sua peregrinação diária até a esquina do hospital, de onde manda o filho mais velho saber notícias, com medo da família da vítima, recebendo sempre a mesma resposta de que é preciso repouso e uma longa e cara convalescença. A palavra cara encareca o velho sitiante, cujo dinheiro é sempre contado para o gasto e a despesa da outra colheita, ou das culturas menores de entressafra, estando completamente desprevenido no momento. E o médico não dá alta. O moço sarou, caminha pelo quintal do hospital, novo de novo, mas não tem alta. Cansou, o doutor. Acorda no meio da noite por conta das brigas de bêbados ou libidinosos, depois fica no prejuízo, com pessoal, luz, impostos, pinturas a serem pagos por quem? Chega. Só sai se pagar. E o povo da vila lhe dá inteira razão. O banco só abre a carteira mais perto da colheita, ninguém da cidade vai custear gozo alheio. O pobre velho anda desesperado de cabeça baixa e quase tromba com a Madá em seu horário de visita, já virou visita, se encabulam, mas ele, sob o peso da angústia, abre com ela seu pobre coração de pai aflito.
Madá se condói. Há alguns dias, ela e o marido voltaram a se falar. Primeiro pelas necessidades do bar e das crianças, depois pelas necessidades maiores e incontornáveis da vida de todo mortal. Falavam e coisas mais faziam. E numa hora das boas ela apresentou o preito do velho pai do rapaz. "Não fala mais desse cara", diz o Gervásio. "Não falo, mas o fato é que ele tá lá, apodrecendo, ao invés de estar trabalhando, sendo útil". E Gervásio lembra dele trabalhando, seu pequeno corpo bailarino, branco que só leite, talvez macio como travesseiro de pena, mas belo como anjo de quadro, serpenteando as mesas e agradando os fregueses. Cede. Tudo bem, manda dizer ao doutor que paga a conta toda; mas o sujeito vai trabalhar no bar até quitar tudo, tudinho. Madá exulta, o delegado aprova, assim nem precisa processo.
Daí sim, o dia amanheceu em paz. O velho voltou tranquilo para os afazeres da roça, as crianças ganharam de volta o tio bonzinho, a carretilha do chuveiro voltou a rosnar baixinho subindo e descendo o balde de água morna, a água a escorrer pelos corpos sarados dos três que convivem sabe lá como na mesma casa, enquanto os pássaros trilam alegremente no aconchego de seus ninhos e as borboletas voejam de flor em flor.
E a freguesia do bar aumentou.



quarta-feira, 1 de março de 2017

O VELHO E A ÁRVORE (um conto gratuito)



O guapiruvu morreu. Não está no chão, mas está morto. Foi raio. O homem olha desolado aquele gigante que se ergue aos céus na sua frente, sem os vários galhos e folhas da copa. Tudo seco, queimado, torrado. Ele pressentiu à noite, durante a tempestade. Quis fazer como fizera muitas vezes na infância, na adolescência, na juventude: sair na tempestade, cuidar dele; na ilusão de que sua presença afastasse os raios. "Tá caduco! Sair nesta chuva prá olhar bichos! Os bichos se viram!" Ele tinha dado a desculpa de ver os bichos, se estavam bem. Todo mundo dizia que isso ia acontecer um dia. Adotou o guapiruvu quando tinha uns doze ou treze anos, não se lembra bem. Mas lembra que naquela idade se achava o mais sabido de todos; explosão de hormônios ou acordamento para o mundo, quem sabe. E todos falavam dos guapiruvus; ninguém gostava deles. "Isso atrai raio! Não pode ter perto de casa!" E por não ter perto, também não queriam longe. "Olha aqui, dizia o pai: um filhote. Tem que arrancar. Não deixa crescer". "Ele bebe bastante água; e aqui tem muita; demais até". "Isso é. Mas atrai raio; é muito perigoso. Não quero, entendeu? Larga semente, espalha muito; arranca!". E tirou a pobre mudinha do solo. Dias depois ele deu com outra muda no bananeiral. Na sua parte do bananeiral; na sua cota de cuidar. Uns cinquenta metros do rio. É uma plantinha bonita; as folhinhas pequenas e delicadas agarradinhas nos galhinhos. Devia ter sobrado do ano passado; devia ter uns dois anos. Três não tinha. Teve pena: deixou. Só ele passava por ali. Ano após ano carpindo em volta das bananeiras e dando mais um ano para o guapiruvu. Até que o pai abandonou aquele terreno todo, aquelas bananas todas, para formar um novo bananeiral mais adiante. Daí foi mais fácil, a quiçaça tomou conta, outras árvores crescem mais rápido e esconderam a jovem árvore. Muitos anos depois, passavam um dia por ali a caminho do rio, da pescaria, e o pai viu. "Ah, danado, você deixou um guapiruvu vivo, hein?" Ele, já moço, homem feito, dono de si, sorriu matreiro. O pai também sorriu. "Tá bom. Agora deixa aí, de reserva, na precisão de uma cerca ou um portão". Os anos passaram, o pai morreu; a mãe morreu; o irmão gêmeo e a cunhada também morreram; e o guapiruvu ficou. O irmão gêmeo com quem dividiu tudo, menos o guapiruvu. As roupas na infância; os livros na escola; o exército, apesar da mãe querer tirar um deles, porque o coronel disse que não precisava mandar dois filhos servir o governo. Um só era suficiente. Nenhum quis sair; dividiram o quartel um ano inteiro; um ano de guerra, de expectativa. Voltaram sem guerra e continuaram dividindo a terra, o trabalho, o rio, as casas, o moinho, os animais. Não dividiram as namoradas. Mas dividiram os filhos. O irmão gerou uma prole numerosa. Ele não, era improdutivo: casou mas não teve nenhum. Criou os do irmão: virou um tio eterno. Agora já é tio avô, muitos netos. "Sobrinhos-netos", se não fosse esta uma longa palavra. Filhos e netos do coração, não dele mesmo, como manda a natureza. Talvez por isso encarasse o guapiruvu como filho; e o pranteou como um filho. Bem agora, que ele era o mais velho, o ancião, e que ninguém mais ia mexer com a árvore, o raio a matou.
"Vai ficar aí prá sempre olhando esse tronco?" gritou a mulher. "Tem que levar as colheitas pra Antonina!" As viagens, as inúmeras viagens rio abaixo levando os produtos da roça numa canoa. Saía lotado, do portinho de casa. Os outros tinham medo. Todo mundo da vilinha levava uns dois quilômetros na carroça, até passar as corredeiras, e só então carregavam nas canoas. Alguns iam mais longe, vários quilômetros, até o rio Cacatu, mais calmo que o Cachoeira, desaguava mais adentro,na baia, antes da cidade, o que tornava mais fácil também o final da viagem. Ele, sempre teimoso; tinha que ser melhor que todos. Saía direto de casa, do seu portinho; vencia as corredeiras sem derramar uma fruta, sem perder uma galinha. Sabia remar e dar ré nos pontos certos; apontar nas quedas e ladear nos poços. Depois, era só descer o rio devagar, com calma, parando para os lanches e o descanso. Até chegar no Corisco, as pedreiras do Corisco, onde a maré da baía brigava com as águas do rio. Às vezes estava calmo, o Corisco. Mas, já virou a canoa algumas vezes; perdeu cargas de produtos ou de compras, conforme se era ida ou volta.

Essa viagem foi tranquila. Depois de uma tempestade sempre vem a calmaria. Ou quase sempre. Dessa vez sobrou a tristeza pelo guapiruvu. Saiu cedinho de casa, cinco horas descendo o rio. Subir chegava a doze. Avista o longo trapiche, as canoas, o mercado, a cidade. Rema até o trapiche e o margeia até o mercado. Encontra parentes, amigos; vende, troca, compra; "E as novidades?" Conta do guapiruvu. Um pescador-feirante ouve, se apresta, pede o tronco, precisa de uma canoa nova. Ele troca por peixe. "Essa semana ou na outra eu subo", disse o pescador. Ele, por sua vez, subiu naquele dia mesmo. Na verdade, naquela noite. Saiu da cidade no fim da luz do dia, remando na fraca Lua, pela margem. Onde a corrente era mais forte ele atravessava de esgueio. Chegou em casa com a luz bonita da alvorada surgindo no nascente. Alguns dias depois, o pescador subiu por terra, ônibus, caronas, com o filho. O menino devia ter bem a idade dele quando salvou a mudazinha frágil do guapiruvu. Acamparam no sítio, pai e filho. Dias, com machado, faca, formão, transformaram o enorme tronco em canoa. "E agora, como vai levar prá Antonina?" "Descemos com ela". "Você não é louco não?" "Menos que o senhor". Os vizinhos ajudaram, puseram a enorme canoa no rio. Pai e filho subiram e largaram. O homem ficou na margem acompanhando com os olhos as hábeis manobras do pescador. Venceu as corredeiras e foi-se. O homem ficou olhando seu guapiruvu partir para um novo destino. Morreu árvore, renasceu canoa.

Nas próximas idas à cidade, ouvia sempre notícias da canoa. Notícias do "Guapiruvu", o nome que o barco recebeu do fabricante. Era uma canoa valiosa e famosa. O dono e o filho eram líderes na pesca.
O tempo passa, os dias correm, algumas memórias se apagam, outras ficam. As descidas para a cidade foram rareando. Em parte, pelo peso dos anos, a presteza diminuindo, e o rio vencendo. Em parte, pela mudança das coisas. A esburacada trilha das carroças foi sendo alargada, virou estrada. Asfaltaram. Agora, o povo sobe em ônibus, camionetes, carros. Ninguém mais precisa descer o rio com produtos da roça. Só descem por divertimento: pesca, canoagem. Ele ainda ama o rio de todas as maneiras. Todo dia os vizinhos vêem o homem caminhar em direção ao rio. Aproxima-se da margem, para por alguns instantes como se o cumprimentasse, e volta. Cada vez mais devagar. Cada vez menos dias. Até que as caminhadas acabam, ele passa para a poltrona em frente da televisão de antena parabólica Depois para o leito... E, finalmente, a notícia corre: o centenário ancião, decano dos nativos, parece que vai partir. No leito, as visitas se sucedem. Inúmeros parentes, amigos, conhecidos, desconhecidos... No olhar velado pelo desinteresse divisa um jovem se aproximando, cujo rosto evoca alguma coisa escondida no fundo da alma. "Lembra de mim, velho? Sou aquele menino que veio com o pai fazer a canoa". Os olhos do velho brilham, um sorriso se desenha na face, ele sente-se fortalecer. Com a voz fraca dos que esperam na última estação da vida, ele pergunta: "E o ‘Guapiruvu’, ainda pesca?" E o jovem conta. "O pai morreu. Sabe como o pai era bom nisso. Eu continuei pescando. Nos temporais do ano passado eu bobeei. Todo mundo tremeu e voltou para a terra. Eu continuei. Não deu outra: afundei. Fui salvo pela guarda-costeira. "E o "Guapiruvu"? "No fundo do mar... prá sempre!".
O velho abandonou a cabeça no travesseiro. Olhou para o vazio. Disse um simples e gentil “Tá bom!” para o moço, fechou os olhos e imaginou o barulho do mar, o mar tantas vezes abraçado, as águas se encontrando sobre ele, e ele descendo até o fundo, onde o esperava paciente o guapiruvu; o “Guapiruvu”.
O jovem, os parentes e amigos, todos os presentes que acompanhavam seus últimos momentos, deram o suspiro de alívio, de fim de ciclo, de fim de vida, de fim de história. Ele se foi.
E como em toda a sua vida só teve filhos do coração e não da carne, não lhe ocorreu perguntar nem informar se o guapiruvu deixou descendentes.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

DAS QUEIXAS PELO MAU ATENDIMENTO NO COMÉRCIO

Tenho visto vários amigos exporem nas redes sociais as situações em que são tratados com empáfia, "esperteza" ou até mesmo desonestidade por empresários dos mais variados ramos de negócios. Exulto com isto, pois acho uma prática saudável, útil e que deveria se generalizar. Que outra forma de promover práticas saudáveis, de educarmo-nos mutuamente, de aprimorarmos os serviços oferecidos do que a queixa ante situações desagradáveis sofridas?
Num país onde os juízes agem como políticos, os políticos agem como negociantes e os negociantes agem como corruptos, ao cidadão, inferiorizado e explorado, resta somente sua voz, hoje ampliada pelas bem vindas redes sociais.
Pois não é que hoje minha família foi vítima de uma "esperteza" dessas?
O carro de minha esposa, usado intensivamente no trânsito de Curitiba, estava precisando de algum trato: um risco aqui, uma esfolada ali... Como pretendíamos passar a semana na praia, resolvemos deixá-lo numa funilaria. Escolhemos o Sato Funilaria Express, o tal "Martelinho de Ouro", na Av. Erasto Gaertner, no Bacacheri. A promessa era de fazer o serviço em três dias. Concordamos com prazo e preço e, deixamos o carro na quinta-feira. Minha mulher avisou que pegaria o carro na sexta-feira, uma vez que voltaríamos da praia na próxima quinta. Mas, ninguém mexeu com o prazo acordado: três dias para o serviço. Hoje, sexta-feira cedo, 17 de fevereiro, aniversário dela, com uma lista enorme de atividades a serem desenvolvidas com o uso do carro, fomos lá e... não estava pronto! O gerente, aproveitando-se da informação que ela dera, programou, à revelia, o término do serviço para sexta-feira à 18 horas! Os três dias viraram seis! E argumentou pachorramente que "a senhora disse que só pegaria o carro na sexta; sexta é até as seis!" Sim, porém começa às oito!
Não estou dizendo que o gerente do tal "martelinho de ouro" na Erasto Gaertner seja incompetente ou "espertinho". Não o conheço suficiente para assim julgá-lo. E, por estar sobrevivendo numa época de crise, é mais provável que seja competente e honesto. Mas, conosco ele cometeu uma incompetência e deu uma de "espertinho".
Espero que seja um deslize pontual dele. Mesmo assim, sugiro aos amigos que venham a solicitar seus serviços que se garantam por escrito quanto ao prazo de entrega do veículo para não se encontrarem na contingência de até mesmo alugarem um carro para fazer frente aos seus compromissos.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O POVO FORJ(Ç)ANDO O ESTADO


Perto da minha casa havia um ponto onde o Estado ameaçava a vida. Com sua omissão.
É um lugar onde se encontram perigosamente dois figurões: a Avenida Francisco M Albizu (um sujeito que não sei quem foi e ninguém sabe o que significa o "M" que nunca aparece por extenso) e a Rua Desembargador Manoel de Lacerda Pinto (este, ao menos, já sabemos o que fez na vida). Dada a patente (avenida) o Francisco é preferencial sobre o Manoel.
E aí mora o perigo. Com a construção da tal "Linha Verde" (um empreendimento de pouco custo e muita onda, indicado para ano eleitoral) o trânsito, sem planejamento, desviou-se para a malfadada esquina. Um acidente destruiu o que existia da precária sinalização. E assim ficou. Os que desciam pela Francisco, em vista da largueza e tradição, sentiam-se com a preferência e colhiam os desavisados que vinham pela Manoel. Os acidentes se tornaram comuns. De nada adiantava ligar à prefeitura, puxar o paletó do vereador: a sinalização não era recomposta.
Hoje, o povo do bairro encheu-se. A população reuniu-se pela manhã, na hora de pico de movimento, e interrompeu tudo com a presença e os apitos. Não arredavam pé. Às autoridades sobraram duas opções: ou o filho do Richa enviava a polícia militar, ou o filho do Fruet enviava os sinalizadores. Pois que o Paraná é uma capitania hereditária: todos os postos são ocupados por fidalgos, filhos-de-algo. Enquanto esse algo, for algo bom, tudo bem.
Prevaleceu o bom senso: vieram os sinalizadores. Estão lá, recompondo o sinal e preservando a vida.
As coisas são assim. A demanda provoca os serviços. Um povo que não sabe demandar, tem um Estado podre, onde os ocupantes de cargos públicos (em qualquer dos ditos poderes) se ocupam mais de seus contracheques que de seus afazeres. Quem sabe com união, protesto, exigência, construamos um Estado eficiente.

terça-feira, 1 de março de 2016

A AUTORIDADE, O IRANIANO E O TAPETE.

Foi Santayana, não, quem disse que desconhecer a história leva à repetição de seus erros?
A história e as lendas.
Dizem que certa vez, há vários séculos, o Xá da Pérsia passeava pela sua capital quando avistou ao longe, numa das tendas do comércio, um belo tapete. Enviou um servo de sua comitiva para adquirir a peça.
-Tapete custa 1.000 moedas, disse o comerciante.
-Eu ouvi o senhor oferecendo o tapete por 500 àquele outro comprador, retrucou o servidor.
-Sim, mas agora tapete vale mais; tapete despertou a atenção do grande e poderoso Xá da Pérsia!
O servo não comprou; retornou ao Xá com a história. O Xá amuou-se, mas nem tanto, e enviou o próprio Grão-vizir para resolver o problema. Lá chegando, o Grão-vizir aborda o iraniano.
-Quanto custa, mesmo, o tapete?
-Meu senhor, ilustre Grão-vizir do reino, tapete custa 2.000 moedas!
-Como se atreve?
-Senhor, tapete agregou valor; tapete fez Xá enviar seu servidor mais qualificado em busca do tapete. Tapete tem história!
O Grão-vizir teve vontade de esganar o vendedor. Como não tinha poder de vida ou morte, resolveu devolver o assunto ao Xá. O Xá, bastante intrigado com a ousadia do comerciante, desceu do trono que ocupava sobre a montaria, e dirigiu-se à tenda. Ao vê-lo, o comerciante prostrou-se ao solo como faziam todos em presença do poder.
-Oh, poderoso Xá, Senhor de toda a Pérsia, quanta honra tê-lo em minha humilde tenda!
-Sem marolas, iraniano, quanto custa o tapete?
-Oh, Senhor todo poderoso, em cujos domínios até o sol demora a se por, tenho grande honra de vender o tapete que fez vossa majestade descer de sua glória para falar com pobre iraniano por 4.000 moedas.
Foi demais para o Xá. Exaltou-se. Com a barba tremendo, a mão direita levantada em ameaça contra o comerciante, o pé batendo nervosamente no chão, conseguiu gritar:
-Como ousas? Por quanto queres me vender o tapete?
-Oh, magnânimo... oh, digníssimo... oh, senhor dos senhores, vendo tapete por 8.000 moedas, para senhor ter tapete muito valioso, tapete que conseguiu levantar a soberana ira do poderoso imperador da grande nação persa.
-Chega! gritou o Xá, sacando a espada. -Agora vou executá-lo!
O comerciante pôs-se de joelhos, baixou a cabeça oferecendo resignado o pescoço, e disse:
-Magnífico, excelentíssimo, ilustríssimo soberano, rei dos reis da terra, eu me sujeito humildemente à sua justiça implacável; mas, por favor, manda pagar à família deste pobre iraniano 16.000 moedas pelo tapete. Tapete fez o mais poderoso dos reis matar pobre iraniano, o último dos seus servos.
-É... murmurou o Xá. Acalmou-se, guardou a espada, pegou o tapete e pagou logo os 16.000 antes que lhe chegasse em 100.
Só mesmo o desconhecimento desta história poderia levar um policialzinho do Sheik Al-keimin à pretensão de fazer um iraniano devolver 5.000 reais por um tapete usado vinte dias pelo freguês.

domingo, 22 de novembro de 2015

CIÊNCIA, DEMOCRACIA E O VELHO E SURRADO CRISTIANISMO.

Certo que tudo começou com Tales de Mileto, há um jubileu de séculos atrás. Mas, certo também que após ele o mundo arrastou-se por dois mil anos sem apresentar diferença significativa no conhecimento e no domínio da natureza. Quando chegamos aos anos 1500 dos cristãos, aos novecentos dos muçulmanos e 4500 dos judeus não havia muita diferença entre as várias civilizações, incluindo a milenar China. No entanto, após a revolução que alguns menosprezam, em duzentos anos os cristãos dominaram o mundo e impuseram sua ciência, sua gravata e sua coca-cola em todos os cantos. Aliás, se um ET nos visitasse ali pelo ano mil dos cristãos, e seus congêneres refizessem a viagem nos dias de hoje servindo-se dos seus relatórios, por certo tentariam encontrar nossos centros mais avançados em Córdova e Bagdá. Veja-se o exemplo do Japão. Tal como todo o mundo, recebeu os cristãos pela primeira vez ali pelo século XVI. Vendo os estragos nos vizinhos, isolou-se. Ali pelo século XIX, não suportando o isolamento e, ante a pressão americana, se abriu. Quando o imperador comparou, pelos relatórios de trezentos anos antes, a tecnologia dos cristãos com a que agora lhe apresentavam, apavorou-se e mandou seus súditos aprenderem com eles. É fato histórico que os cristãos, até o final do século XV, em igualdade de condições, senão até mais atrasados que outros povos, em um curto período de tempo deixou-os todos na poeira. Só é possível negar isto a quem não se desloca na linha do tempo para a compreensão da história, e observa apenas o mundo de hoje, onde Japão, China, Árabes, Europeus, etc., se igualam. Mas, se igualam porque assimilaram a ciência ocidental. E a ciência ocidental surgiu porque Descartes erigiu a dúvida como postura permanente, Bacon estabeleceu a experiência como ferramenta, Copérnico e Galileu provaram que a natureza se manifesta na matemática, Hobbes demonstrou que a moral é humana e não divina, e, finalmente, Lutero eliminou os intermediários obrigando o homem a encarar Deus nu e solitário, tendo como culto o mais extremo subjetivismo: a Palavra.
Portanto, não sei se, o quê, o quanto ou o nada que a ciência deva ao cristianismo. Mas, o relato histórico acima é um fato.
Talvez por isso Herculano Pires disse que Jesus de Nazaré iniciou a "era da razão". O fato é que esse menino colocou seu deus único e ideado (segundo Freud, o surgimento desse deus -- lá atrás, com Moisés ou Akhenaton -- significou o surgimento do indivíduo) na mochila, passou pela Grécia e apanhou a filosofia numa das mãos, talvez na outra a noção de direito e ordem romanas, e partiu para a conquista do resto da Europa, onde mais tarde se operou a emersão da subjetividade que espalhou a ciência e a democracia pelo planeta.
Se hoje as coisas estão diferentes, se isto foi bom ou ruim, certo ou errado, quadrado ou redondo, e o futuro é incerto, nada muda o passado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O DIA DA NEVE

O dia 17 de julho de 1975 em Curitiba se tornaria inesquecível. Logo pela manhã, ao olhar pela janela, via-se flocos de neve caindo das beiradas dos telhados das casas. As calçadas e os gramados todos brancos. Uma alegria inesperada contagiou toda a população. As pessoas sorriam, se confraternizavam e esgotavam os estoques de filmes, negativos e diapositivos das lojas especializadas e pontos de venda.

Alguém lembrou-se de datar o evento no Bondinho.


As floreiras da Rua XV ficaram salpicadas pela neve.


Os canteiros da Praça Zacarias embranquecidos.


Por volta das dez horas recomeçou a nevasca.


A neve se acumulou nos bancos da Praça Zacarias.


E sobre o táxi ocioso.


Mesmo o fotógrafo rendeu-se a uma pose com um boneco de neve.


Logo de manhã o susto foi grande.


A Renate saiu apenas para uma pose rápida, encolhida sobre o gramado nevado...


... e fotografar o fotógrafo...


... para retornar ao aconchego do interior, com o Alex e a Anne...


... protegendo as crianças já gripadas.


A neve cobria os telhados das casas...


Não perdoando árvores e gramas nos jardins.


Nem poupando a torre da Telepar.


Mas Curitiba, cidade das quatro estações num só dia, viu o tempo se abrir à tarde, e o dia terminou em paz...



Emprestei uma Canon 35mm do geólogo da empresa, comprei um filme de slides e bati esta sequência durante o dia da neve.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

CHARLIE, FRANCISCO, LEONARDO E A CULPA DAS VÍTIMAS.



Pode criticar a fé, sim! Pode fazer charge, sim! Quem acredita que não pode, que é um grave pecado, que não faça. Mas não se julgue no direito de matar quem o faz. O suposto direito dos monoteístas disporem da vida dos outros -- direito que julgaram um dia possuir -- foi devidamente enviado para a fossa da história. Se uma pessoa xinga a outra de "filho da puta" -- como propôs o bom papa -- a outra não tem o direito de desferir-lhe um soco, não! Na civilização -- e, para que a civilização possa existir -- o ofendido denuncia, processa, faz uma queixa formal à polícia, enfim, age pelos meios legais. Nunca pela violência!
Agora, a coisa fica pior ainda quando o ofendido já estuprou ou queimou na fogueira a mãe e as irmãs do ofensor. Não foi mais ou menos isto que aconteceu na história? Ou esses cândidos anjos que agora reclamam com voz melosa que não se pode ofender sua fé a levaram pacificamente para os quatro cantos do mundo? Levaram pela violência. Os cristãos exterminaram tribos inteiras, destruíram famílias, templos, ídolos, objetos sagrados de outros grupos apenas por causa de religião. Vá numa locadora remanescente ou compre pela internet o filme "Alexandria" (em Portugal e Espanha: "Agora") e veja os métodos cristãos para impor a "mensagem de amor" do humilde carpinteiro ao mundo grego antigo. Leia sobre a conquista dos povos pré-colombianos e sua submissão à fé que agora os líderes dessas religiões defendem tão enternecidos. E os muçulmanos não ficaram atrás. Fizeram dessas e piores nas regiões por onde se expandiram. Com sátira e tudo. Quando eles tomaram Jerusalém, escreveram no famoso Templo, que já fora judaico e, então, era ocupado pelos cristãos: "Bem louco é quem acredita que Deus saiu do meio das pernas de uma mulher". Agora, querem justificar crimes covardes porque desenham seu profeta? Charlie Hebdo ou quem o quiser tem o direito de satirizar a religião, sim! Mesmo satirizando, ainda estarão bem mais próximos da suposta mensagem de amor que tais religiosos alegam conduzir (e, portanto, mais próximos de Deus, se ele existir), pois agem pelo humor, não pela violência como fizeram na história. Dificilmente se encontra religião limpa. Mesmo os budistas, que foram hostilizados e extintos em muitos lugares pelos muçulmanos (lembram o episódio da explosão dos Budas nas montanhas do Afeganistão?) também não conseguiriam expandir-se apenas com a meditação desde a India até o Japão. Consultem suas histórias e lendas: quem resistiu, ou pensou diferente, foi transformado em demônio e lançado no abismo.
E os religiosos continuam agindo assim. Há pouco tempo vimos um apresentador de televisão acusando os ateus pela criminalidade existente no Brasil e propondo acabar com "essa gente".
Então, caros amigos, nobre papa e brilhante Frei Boff, deixemos às vítimas da sanha monoteísta por invadir corpos e mentes dos outros, ao menos, o direito de fazerem humor com aqueles que ameaçaram e continuam ameaçando a liberdade de pensamento!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

TRAGÉDIAS!...


Estamos chocados com o massacre do Charlie Hebdo. Afinal, pessoas violentas e armadas, por pura vontade própria, entrarem na pacífica redação de um jornal e matarem 12 pessoas é um acontecimento para chocar-nos a todos. Eu, como todos nós, também “sou Charlie” nesta hora.
Mas tem outra coisa que me assusta: é nossa apatia (ou, ao menos, nossa reação bem menor) a outros massacres semelhantes com os quais convivemos todos os dias. A violência, no Brasil -- somando-se a provocada pelos criminosos com a provocada pelos motoristas --, produz um massacre desses por hora. Doze vidas são ceifadas pela violência em nosso país todas as horas, de todos os dias do ano. Desde o exato momento em que os dois irmãos enlouquecidos provocaram a terrível tragédia na redação do Charlie Hebdo, até o momento em que escrevo este tópico, tivemos, no Brasil, 48 massacres iguais àquele. O razoável número de 576 pessoas, das mais variadas profissões, que estavam pacificamente em suas casas ou locais de trabalho, que se dirigiam ordeiramente ao trabalho, ao estudo ou às compras, tiveram suas vidas interrompidas violentamente neste curto período em que permaneci na internet ou em frente à televisão, acompanhando estarrecido o massacre de Paris. E ficamos chocados? Ficaram chocados seus familiares, parentes e amigos. Providenciaram os traslados, os féretros, velaram entristecidos seus corpos e, deles se despediram na sepultura. Pais assombrados, esposos solitários e filhos órfãos olharam à sua volta sem entenderem porque apenas eles – e não o mundo – estavam chocados com o ocorrido. Talvez tenham tido a oportunidade, durante o luto, de lançarem um olhar apático em direção à mídia que repercutia os acontecimentos de Paris, retribuindo assim a indiferença com que o mundo olhava sua dor.
Será que nossa capacidade de indignação e de choque está anestesiada pela rotina e só se manifesta com ingredientes novos e exóticos, assim como as papilas gustativas se anestesiam com uma refeição repetida, necessitando de novos temperos para despertar nosso interesse? Será que a intensidade de nossa tragédia é tão grande que estressou nossos sentimentos e nos socorremos no espanto da tragédia alheia na esperança de não perdê-los por completo?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

GUSTAVO FRUET: “ABAIXO O ÔNIBUS; USE O CARRO!”




Não, claro, nosso nobre alcaide não disse tamanha besteira. Ele fez pior: agiu como se o dissesse. Eu votei no Gustavo Fruet. E não tenho como me arrepender, pois a alternativa apresentada nas eleições era pior. Mas, a maneira atrapalhada como ele introduz o cartão-transporte em nosso “jardim suspenso no primeiro planalto” me deixa dúvidas. Não sou um utente diário do transporte coletivo. Apenas fui conscientizado pela brava militância ambientalista dos malefícios do transporte individual. Compromissos no centro da cidade, resolvi aderir deixando o carro em casa. Fui barrado no ônibus: pelo motorista, já que não há mais cobradores. Não aceitou meus reais. “E dólares?” “Também não!” “Euros?” “Não, só o cartão”. “Então me dá um cartão” “Eu não vendo cartão. E dá licença, que o próximo da fila de embarque tem”. Vi-me privado, assim de repente, de um conforto usufruído durante décadas de minha vida: a liberdade de entrar qualquer hora em qualquer ônibus, usando a moeda nacional. Bem, como as duas linhas que fazem meu bairro agora só aceitam cartões, liguei para o milagroso número 156 querendo saber como fazer para adquirir o meu. “Não sei, viu” disse o prestativo atendente, “acho que aquelas bancas do centro da cidade têm”. Mas como eu vou para o centro da cidade? Só com o cartão. E onde eu compro o cartão? No centro da cidade.
Naquele dia mais um automóvel saiu da garagem e colaborou para a lentidão do trânsito.
Eu sou teimoso. Apesar do prefeito Gustavo Fruet odiar (desculpe, talvez apenas ame menos) o meio ambiente, tentei novamente. Num outro dia, fui de carona até o centro da cidade. Só não tive sorte em achar as privilegiadas bancas de revistas que detêm o poder de me vender um cartão. Dirigi-me a um tubo. Para quem não sabe, “o tubo”, ou a “estação tubo”, é uma bela invenção do ex-prefeito Jaime Lerner, que já foi até testada em Nova Iorque. Não foi aprovada, mas, ser testada já é uma honra. Por sorte, no tubo ainda há cobrador. E recebe em dinheiro! Mas, não em cartão, esse terrível ceifador de cobradores. “Você vende os tais cartões?” “Não, talvez no terminal” (outra brilhante invenção do Lerner). No terminal dirigi-me ao preposto da prefeitura, o funcionário que cobra (em dinheiro, não em cartão) entrada para o acesso aos ônibus, ou seja, passagens. “Não vendo. Tá vendo aquela lanchonete lá, ó?” “Lá longe?” “É!”
Na lanchonete comecei a entender a quem interessa o crime. Tenho que convir que dá um certo conforto ao usuário, livrando-o das inconveniências do troco. Agora quem lucra mesmo são as empresas concessionárias – cujos fundadores são todos nomes de ruas e praças --, dispensando um exército de cobradores. E, também os pequenos empresários que vendem os cartões, onde se embute um aumento não admitido das passagens. O cartão custa 3 reais, o que, no caso de compra mínima, representa um aumento de cinquenta centavos por passagem. Cada recarga custa 1 real, o que, no mesmo caso, representa um aumento de quinze centavos por passagem.
Pior foi querer usar o transporte coletivo em pleno dois de janeiro. Usei a última passagem. Entrei no pesadelo dos utentes: na rua, de bolso cheio mas cartão vazio! Procurei a tal lanchonete privilegiada. “Hoje não dá prá fazer recarga. A Urbs tá fechada. Só dia cinco!”
Puxa vida, Gustavo Fruet! Não piora tanto! Você já criou dificuldade para a compra de cartões de estacionamento, os famosos “carnês do Estar”. Vendia-se em todo lugar; agora é um monopólio das lotéricas. Pelo menos com os cartões-transporte, facilita as coisas. Deixa o motorista vender. Ou deixa os cobradores remanescentes nas entradas de terminais e tubos venderem. Ou multiplica os pontos de venda, cára! Senão eu vou ter que solicitar aos senhores políticos que em seus conchavos para as próximas eleições multipliquem as alternativas viáveis para o nosso voto. Estou cansado de eleger o menos ruim.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"ÉS MESTRE EM ISRAEL E NÃO SABES ESTAS COISAS?"



Não pretendia escrever sobre o juiz e a agente de trânsito. Lembro muito bem o conselho de um velho político pé vermelho (gente do Norte do Paraná): "nunca brigue com as pessoas que usam saias". À parte o machismo da época, o conselho também está desatualizado quanto aos usos. As mulheres substituíram as saias pelas pantalonas; os padres, suas batinas por jeans; e os juízes apenas jogam um pano preto de seda nas costas nos momentos mais formais. Na época, o dito servia; e o dizente explicava: "senão poderá ter das mulheres o desprezo, dos padres a excomunhão e dos juízes a prisão".
Bem, daí, surgiu outro caso, este envolvendo um juiz e agentes de embarque. Não consegui me furtar a conjecturas. A tentar divisar o cerne da questão; o móvel que tem a capacidade de retirar os magistrados de suas posturas recatadas e lançá-los na utilização de suas meritíssimas autoridades em causa própria. E tal só pode ser um: o desnudamento. Desnudar alguém deve ser um dos atos mais violentos possíveis. No caso de um rei, torna-se um ato de lesa-majestade. E o maior sofrimento é que a vítima fica nua ante si mesma, antes de o ficar para os outros.
Existe um princípio jurídico universalmente aceito de que a ninguém é facultado alegar ignorância da lei. Claro, se fosse isto possível, nenhum sistema jurídico se sustentaria, pois bastaria ao flagrado em adultério alegar que não sabia estar cometendo um pecado. Os juízes são, em nossa sociedade, justamente as autoridades encarregadas de fazer valer este princípio, e de punir adequadamente quem infringir as leis, sem comiseração pela eventual ignorância do réu. Deve ser, portanto, mais doloroso a eles que aos demais o serem flagrados na infringência desta máxima.
E, não residiu aí a condenação da brava agente de trânsito? Um juiz foi pego em uma blitz com o carro sem placas e sem documentos. Em sua defesa, alegou que nem sabia quanto tempo tinha para regularizar a documentação ao comprar um carro. Bem, a pobre moça, certamente boa cristã, altercou como o mais festejado avatar de nossa civilização ocidental o fizera: "O senhor é juiz e não conhece a lei?". No caso dos agentes de embarque não foi diferente. Nem houve necessidade de qualquer observação dos rapazes. Certamente, ante a insistência do cidadão à sua frente em embarcar atrasado num vôo, lançaram-lhe um olhar tal que o magistrado sentiu caírem-lhe uma a uma as peças da arrogância com que se vestem tais pessoas.
Mas, de tudo isto, aprendemos que o progresso se faz, a despeito de não o notarmos. Jesus, por desnudar os doutores da lei de seu tempo foi torturado e morto por crucificação. Nossa jovem agente de trânsito apenas foi multada em cinco mil reais; e os humildes rapazes do balcão do aeroporto pagaram algumas horas de delegacia.

sábado, 23 de agosto de 2014

HISTÓRIAS FAMILIARES DA PRIMEIRA GRANDE GUERRA - 1914-1918 - A saga de Ludwig Göbel



Quem não pensa em fazer um roteiro de automóvel pela Europa? Seja pela sua importância cultural, influenciando o mundo todo, seja pelos laços de ancestralidade que nos unem ao Velho Mundo. Há alguns anos, eu e minha esposa resolvemos realizar esse sonho: programamos um longo passeio de automóvel por vários países europeus. Na bagagem, uma porção de envelopes antigos, a fim de aproveitarmos a oportunidade para conhecer irmãos de nossos avós e primos de nossos pais, que lá permaneceram, apesar dos grandes movimentos migratórios do início do século. Após uma agradável semana em Paris, valeu uma esticada ao Palácio de Versalhes, onde, em seu famoso Salão dos Espelhos, não pudemos deixar de lembrar da assinatura do Tratado que leva o nome do local, e que encerrou o terrível conflito do título, tão presente na história de nossas famílias.
De Versalhes rumamos para Reims, em busca de sua bela Catedral, onde eram coroados os reis da França, e onde se encontra a escultura do "Anjo Sorridente". Fomos brindados com dois espetáculos inesperados, sorte de viajantes. Quando, após um giro pela cidade, adentramos a catedral, deparamos com várias crianças dançando e cantando alegremente em torno de uma tina de água coberta de pétalas de rosas no que parecia ser uma cerimônia de consagração da água que, por certo, seria usada nas várias missas do ano. Enquanto aproveitávamos a última luz do dia para admirar os famosos vitrais de Marc Chagall, um padre veio conversar alegre e efusivamente conosco; fingimos que entendemos e ficamos por ali. Resultado: terminamos a noite assistindo um ensaio "particular" de canto gregoriano.
Dali, partimos rumo a Luxemburgo preferindo as estradas secundárias que nos permitissem a observação dos vários "chateaux", a vista da extensa planície da Champagne -- nesta época colorida pela cultura da canola -- e, pelo lado do interesse histórico, a visão dos monumentos e ruínas preservadas das terríveis trincheiras da Grande Guerra. Deveríamos passar por dentro de Vouziers, uma pequena cidade francesa, mas, como eles realizavam sua tradicional festa da fé ("la foi") e uma das carroças alegóricas estacionara bem em frente à placa de sinalização, continuamos pela estrada que se curvava para o sul. Viajamos uns vinte quilômetros antes de darmos conta do engano. Paramos em um lugar chamado Cernay-en-Dormois, em frente a um monumento em homenagem aos mortos nas batalhas ocorridas na região no periodo 1914-18.
E começamos a nos perguntar o que nos levara àquele lugar: o simples acaso?


Monumento aos mortos da Primeira Guerra, em Cernay-en-Dormois.Existem inúmeros desses monumentos no Norte da França


Conversamos com uma francesa que nos colocou no caminho certo. Retornamos a Vouziers, entramos no cortejo da festa a fim de ultrapassar a cidade. E fomos novamente brindados com a alegria contagiante das crianças, que chegaram a arremessar confetes para dentro do nosso carro.


Imagens da Festa "La Foi" em Vouziers, banda desfiando e crianças em carro alegórico.



Continuando nossa jornada pelos campos da Champagne, observando as pequenas colinas formadas por antigas trincheiras soterradas, assim como as silhuetas de casamatas, algumas da famosa Linha Maginot, nos veio à mente a lembrança dos nossos avós, envolvidos diretamente naquele conflito. A Renate lembrou-se vivamente do seu avô, Ludwig Göbel, pai do seu pai, cuja historia pessoal, no período, segue pari passu o rol das batalhas. Tal como outros ex-combatentes, ele pouco falava de suas experiências de guerra; mas deixara transparecer suficientemente que sua decisão de deixar a Alemanha se dera não só pela difícil situação em que o país ficou após a derrota, como também ante o temor de que seus filhos viessem a sofrer as mesmas privações e dores enfrentadas por ele em combate.


Paisagem da Champagne. Esta região era o front de trincheiras e casamatas durante a Primeira Guerra.



A viagem terminou bem, encontramos vários parentes, tanto na Alemanha quanto na Itália, e reatamos a comunicação interfamiliar interrompida por várias décadas.

Neste ano de 2014, comemora-se em todo o mundo o Centenário da Primeira Grande Guerra. Motivados pelas reportagens e artigos que a imprensa vem fazendo, lá fomos nós pesquisar nos guardados da família, buscando resgatar a participação de Ludwig Göbel no conflito. Na "weltkrieg", como dizem os alemães.

As condições para a Guerra de 14 (como ela foi chamada no Brasil durante muito tempo) vinham sendo construídas há vários anos. A Europa era a senhora do mundo. No Império Britânico o sol nunca se punha. A França possuía colônias em todos os Continentes. A Holanda e a Bélgica -- pequenas em território e população, mas muito bem sucedidas na administração do capital --, dominavam vários territórios há séculos. A Rússia tinha toda a extensão asiática para seu exercício de poder. Apenas o vetusto império central -- a Áustria-Hungria -- e as potências recentemente unificadas -- Alemanha e Itália -- ficavam de fora do banquete. Nada mais natural que estas últimas se unissem na "Tríplice Aliança", em busca de interesses comuns, enquanto que os colonialistas se unissem numa "Entente Cordiale". O acúmulo e o aperfeiçoamento das armas, a formação de vastos exércitos, a crença de que a guerra era um meio válido para solução de problemas políticos, tudo isto construía o barril de pólvora pronto a explodir à menor fagulha. E a fagulha veio de uma área de conflito, os Bálcans, onde se encontravam em jogo interesses da Áustria-Hungria, da Sérvia, da Itália e da Turquia. Um estudante servo-bósnio, Gravillo Princip, assassinou o Arquiduque Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, que visitava Sarajevo, atual Bósnia. As exigências posteriores ao atentado levaram a Áustria-Hungria a invadir a Sérvia; a Rússia a mobilizar suas forças contra a primeira; a Alemanha correr em defesa da Áustria em função das alianças; a França a declarar guerra à Alemanha em função da Entente; a Alemanha a procurar atingir a França pela Bélgica, cuja invasão foi motivo da entrada da Inglaterra no conflito. E o conflito ampliou-se. Todos achavam que a guerra seria rápida: uns três meses, no máximo. Pelo tamanho dos exércitos e a quantidade de armas envolvidas, julgava-se que o primeiro país a impor um bom golpe de força em seu oponente, venceria. Não foi bem assim. Os exércitos se encontraram em batalhas com inúmeras baixas, verdadeiras carnificinas, cavaram trincheiras no barro impondo sofrimentos terríveis aos soldados, e permaneceram num jogo de forças onde a quantidade de mortos não justificava os minguados avanços territoriais, durante mais de quatro anos.

Ludwig Göbel (Ludwig, ou Louis, ambas as formas correspondentes ao nosso Luís), marceneiro de profissão, foi incorporado como um "gardisten" (algo como "infantaria de guarda") em 7 de agosto de 1914, quatorze dias antes do seu vigésimo aniversário. Seu "militarpass" (caderneta militar) é um verdadeiro resumo de toda a Grande Guerra. Integrou uma Garde-Ersatz Division, uma Divisão de Substituição, ou de Reserva. O exército em atividade no momento da declaração de guerra, constituído de tropas bem treinadas, era o responsável pelos ataques iniciais e a rápida ocupação de território inimigo. Os civis convocados, treinados a toque de caixa, formavam o contingente da reserva, utilizados tanto na ocupação como na substituição das tropas abatidas nos primeiros embates. Logo ficou claro para todos que, naquela guerra, não haveria diferença significativa entre as tropas de assalto e as de reserva. A máquina de guerra do Império Alemão avançou pela Bélgica ocupando extensas áreas do Norte da França. Sob o comando do General Moltke chegou a 40 quilômetros de Paris. Mas, por uma série de manobras mal sucedidas, permitiu uma boa reação de britânicos e franceses, e os alemães recuaram vários quilômetros, consolidando uma linha de avanço dentro da França e Bélgica. E o que se iniciara como uma guerra de movimentos transformou-se rapidamente na terrível guerra de trincheiras.
Ao norte, contra os russos, um contingente bem menor garantia o apoio aos austríacos.


Guerra de trincheiras.



Após o treinamento inicial em sua região, o Gardisten Göbel foi integrado no Regimento de Infantaria 221, da 2ª Companhia, colocado em prontidão da região de Lille, França, entre 27 de outubro e 22 de novembro de 1914.
Entretanto, na frente oriental, de maneira um tanto inesperada, os russos começaram a bater nos austríacos, ameaçando, dessa forma, o norte da Alemanha. Como, na frente ocidental, os franceses ainda não ameaçavam território alemão, o Alto Comando viu-se na necessidade de deslocar as forças de reserva para socorrer a frente russa. Alguns historiadores dizem que o General Falkenhayn (substituto de Moltke, que fora afastado por não alcançar o sucesso esperado na Batalha do Marne) recusou-se a fornecer tropas reservas para a dupla de generais Hindenburg e Ludendorf rechaçar o avanço russo, alegando que precisava delas para manter os territórios conquistados na França. Porém, o "militarpass" de Göbel desmente isto. No final de novembro de 1914, ele foi mandado para a Polônia, onde combateu na Batalha de Lask-Pabianice, entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro de 1914. Essa batalha foi precursora da tomada de Lödz pelos alemães. Göbel permaneceu apenas dois meses na frente russa. De volta à frente ocidental, integrou, sucessivamente, os Batalhões de Infantaria nºs. 115 e 168. Em maio de 1916 foi ferido nas trincheiras de Argonne. Sua recuperação ocorreu no hospital de Darmstadt, sede da sua divisão. Ali, trabalhava como enfermeira voluntária, Dora Hermann. Conheceram-se, e iniciaram um namoro.

Fotos de Göbel ferido: na de cima, o de faixa presa pelo queixo; na de baixo, ele é o da direita.




Em foto enviada em 27.5.16, seu companheiro de armas, Diltz, dá-lhe informações do front: "Wagner recebeu uma prótese na boca"... "Agora temos licenças de 6 dias"... "O francês atirou granadas de gás em nosso acampamento, sem perdão"... Esta última informação desmente a crença difundida pelas potências vencedoras de que só os alemães teriam usado a guerra química:
Amigo Diltz.








Em abril de 1917 ele volta à frente francesa, onde se envolve numa série de batalhas. Incorporado ao Regimento de Infantaria 390, participa da Dupla Batalha do Aisne, Champagne, entre 16 de abril e 27 de maio.
Entre 28 de maio e 23 de outubro permanece em prontidão no famoso Caminho das Damas. Este longo período de prontidão permitiu-lhe várias licenças, numa das quais casou-se, em sua terra natal, Eberstadt-Darmstadt, com Dora Hermann Göbel, em 17 dejunho de 1917.


"Militarpass" de Göbel. Capa, identificação e página onde consta sua presença na França e na Polônia Russa no mesmo ano. Veja o detalhe à direita.






Em fins de outubro, quando houve a ofensiva aliada sobre o Caminho das Damas, Göbel lutou nos campos e trincheiras a nordeste de Braye-en-Laonnois.
Com a chegada do inverno, a luta arrefece, permitindo a muitos soldados alguns dias de descanso junto às suas famílias, principalmente nas festas de final de ano.
Mas, a partir da primavera de 1918, o Estado Maior alemão inicia uma grande ofensiva tentando definir os destinos da guerra antes que cheguem os reforços americanos. O jovem Louis envolve-se novamente em combates que durariam até o fim do conflito, em várias frentes, como o Rio Marne, em Soissons, Reims e inúmeros lugares da Champagne.
Quando nasceu Arthur, seu primeiro filho, Göbel encontrava-se em plena atividade na Champagne.
De 10 a 20 de outubro de 1918, participou das batalhas nas margens do Rio Aisne, perto da foz do Aire. Dali, os alemães recuaram para Vouziers, onde Göbel lutou sua última batalha, pois, sua Divisão foi dissolvida em 1º de novembro. A Alemanha, exaurida por quatro anos de guerra e um eficaz bloqueio marítimo, vendo seus aliados capitularem e, tendo que enfrentar tropas novas e motivadas vindas da América, não viu outra saída senão render-se no dia 11 de novembro de 1918.


Páginas do "militarpass" com relação das batalhas e deslocamentos.





A esta altura da história e de nossa pesquisa, descobrimos que o engano cometido em nossa viagem pela França deveu-se mais a essas forças desconhecidas que regem nossos destinos do que a uma simples coincidência: o desvio de caminho que fizemos em Vouziers nos levou a Cernay-en-Dormois, a poucos quilômetros da foz do Aire. A foz do Rio Aire e a Vila de Vouziers: os dois locais onde o Gardisten Louis Göbel, avô da Renate, lutou suas últimas batalhas na Primeira Grande Guerra.


Acima, página do "militarpass" com a baixa de Göbel. Abaixo, a "Cruz de Honra para o Combatente", que Göbel recebeu em 1935.


Certificado da Cruz de Honra para combatente. Criada em 1934 pelo Presidente Hindenburg (por isso também chamada de "Cruz Hindenburg"), em duas categorias (combatente e não-combatente), destinava-se aos alemães que participaram da Grande Guerra.




Clique aqui e veja foto dos soldados alemães cavando trincheiras nas Argonnes.




Com a paz, desmobilizado, retornou à sua profissão de marceneiro. Ele e a esposa Dora tentaram enfrentar os ciclos de desemprego e hiperinflação da República de Weimar. Em 12 de fevereiro de 1920, nasce-lhes o segundo filho, o pai da Renate, também chamado Luis. Mas, eles desistiram da Europa e suas guerras. Iniciaram sua viagem de emigração em fevereiro de 1924 para, finalmente, aportarem em São Francisco do Sul, Santa Catarina, Brasil, em 29 de abril. Fixaram-se no Paraná, onde tiveram mais os filhos Alice, Hilda e Frederico, assim como muitos netos.


Ludwig e Dora quando chegaram ao Brasil. Ludwig em 1939. Foto no último passaporte.



Dora, nascida em 11.1.1896, faleceu em 15.10.1966. Ludwig, nascido em 21.8.1894, faleceu em 7 de novembro de 1973. Ambos estão sepultados no Cemitério do Alto Glória, em Curitiba.
Seus filhos também já se foram... Afinal, esta história já tem cem anos.


(Texto: João Alberto Vendrani Donha
Pesquisa: Renate Gobel Donha)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"LÁ ONDE EU MORAVA"

Assim mesmo, sem vírgula, num sopro só, era como as crianças falavam lá onde eu morava. Uma cidade nova e pequena, à beira de um grande rio e rodeada de plantações, fronteira do povoamento, onde todo mundo vinha de fora. Só os bebês haviam nascido ali. As crianças nas suas rusgas de competição contavam e inventavam histórias começando sempre por este refrão: "lá onde eu morava..." Algum tempo depois, o refrão tornou-se a senha para a descrença.
Eu lembrei disto agora por causa da história que me veio à mente. De lá, de onde eu morava.
Havia um homem inteligente, bem à frente dos outros, preocupado com o presente e o futuro. E como o povo sofria para controlar suas vastas plantações, pulverizá-las eventualmente, expulsar animais depredadores e outras coisas, ele resolveu construir para a comunidade, nada mais nada menos do que... um avião! Dias de trabalho, aplicados diligentemente em sua empreitada e o objeto ficou pronto. Anunciou à população -- pelos meios de divulgação que se pode ter num local como aquele -- e todos se reuniram curiosos em volta de sua obra. Observaram, analisaram, estudaram, testaram, coçaram suas cabeças, e verificaram -- alguns constritos, outros zombeteiros -- que a coisa não voava! Os que o admiravam, certos de que não poderia algo inútil sair de tão brilhante mente, foram empurrando o objeto para o rio, e, assim que o lançaram na água, verificaram, felizes, que ele... flutuava! Alvissareiros notaram que não apenas flutuava, mas que o objeto era, na verdade, um barco muito mais aperfeiçoado que os demais, os quais, próximos à obsolescência, balançavam acorrentados à margem. E o número das pessoas que passaram a servir-se do novo modelo de barco aumentou consideravelmente. Mas, pasmem, para desgosto do seu construtor, que chegava a ficar indignado quanto ao uso que davam para o seu avião. "Calma, rapaz, desfrute de sua invenção, é um excelente barco", diziam as pessoas. Ao que ele respondia que não era barco, pois o inventor era ele, e ele sabia muito bem o que tinha inventado; um avião! O mais estranho é que não faltavam pessoas a concordar com ele; a teimar e argumentar que era um avião, e que os habitantes do lugar deveriam utilizá-lo para voar. O tempo foi passando, as pessoas que adotaram o barco pescavam e navegavam pelo rio, os que o achavam um avião tentavam fazê-lo voar, até que um dia, sentado numa pedra, o inventor observava o rio distraído, quando aproximou-se dele um menino e perguntou: "Então, inventor, é um barco ou não é?" O homem olhou o menino, olhou o rio e as silhuetas das embarcações contra o sol fraco da tarde, e iniciou a resposta: "É... bem... bom... sim... mas...". E mais não disse, pois morreu atingido por um infarto fulminante.

Pouco tempo faz eu retornei "lá onde eu morava". Matar a saudade, antes que ela me matasse. A cidade cresceu, a paisagem mudou, mas o rio está lá. Cheio de embarcações, muitas delas são modelos um tanto modificados do barco do inventor. Estão levando turistas pelo rio, equipes em pesquisas, pescadores em busca do seu sustento diário. Várias pessoas alegres, louvando a inteligência daquele homem que lhes proporcionou tal objeto.
Mas, ao lado da pequena praia fluvial havia um grupo de pessoas sérias, olhando para o rio com expressões ora zombeteiras, ora resmungonas, censurando e criticando os demais, como se navegar fosse uma traição ao inventor do barco. Aproximei-me a fim de ver o objeto que eles cercavam e guardavam. Parecia a invenção original, um pouco desgastada pelo tempo, acrescida de alguns componentes novos, uma turbina, talvez, uma pintura nova.
Contudo... ainda não voa!


sábado, 7 de junho de 2014

1914-1918 - CENTENÁRIO DE UMA HECATOMBE



A Primeira Grande Guerra -- aquela que, nas esperanças humanas, acabaria com todas as outras --, está completando cem anos. Quando criança, as imagens que eu tinha de uma guerra referiam-se a este conflito; somente na adolescência elas foram sendo substituídas pelas cinematográficas. Isto porque minha querida e saudosa avó materna, Maria de Carli, vivenciou, no front italiano, as consequencias desse desatino em grande escala. Seus relatos, acompanhados pelos olhinhos arregalados da minha mãe e meus tios nas noites paulistas, ao calor aconchegante do fogão de lenha, perduram no imaginário familiar.
No verão de 1914, Maria ainda não havia completado os onze anos. Corria pelas verdes planuras de Pasiano di Pordenone, em direção à Escola Comunal, embalada nos sonhos infantis, ansiosa pelo reencontro com a mestra querida, na esperança de tornar-se, mais tarde, ela mesma uma professora. Em sua casa -- um daqueles típicos sobrados do meio rural --, sua mãe, Virgínia Victor, dava conta dos afazeres domésticos, os quais incluíam a ordenha da vaca e a colheita dos ovos das poucas galinhas, enquanto seu pai, Antonio de Carli, cuidava das amoreiras, com seus vários bichos-da-seda, a nova e promissora fonte de renda da família, além do pomar e do pequeno vinhedo. Maria, a mais velha entre 8 irmãos, ajudava, claro, o papai e a mamãe, na faina diária, conforme os costumes familiares da época, além de sua dedicação aos estudos.
A Itália não se contava entre as nações mais ricas da Europa. Haviam regiões bastante sofridas. Mas, Pasiano di Pordenone, na época Província de Udine, região da Friuli, era um "tra i più avanzati comuni"(1). As associações agrícolas da Friuli do final do Século XIX e começo do XX, inspiradas pelas idéias mutualistas -- que hoje persistem como cooperativistas -- influenciaram uma exploração da terra e do trabalho mais avançada em relação a outras regiões. Empenhavam-se na modernização das técnicas agrícolas, no combate às pragas dos vinhedos, na introdução de novas culturas, como o bicho-da-seda e as orquídeas, desenvolviam cavalos de raça. O comune possuía um "laticínio social", fornos comunitários, uma pequena hidrelétrica, moinho e, ainda, investiam na formação e aperfeiçoamento dos agricultores e na educação popular. Uma empresa de cerâmica produzia azulejos que, tais como outros produtos, eram exportados para outras regiões do país e mesmo para o exterior (1). Enquanto que, a poucos quilômetros dali, na região do Vêneto, mais especificamente no comune de Motta di Livenza, sob condições mais severas, a família do meu avô materno, Pietro Vendrame -- que só viria a conhecer minha avó muitos anos depois, no Brasil -- viram-se obrigados a emigrar, dois anos antes, em busca de melhores condições de vida.
Assim viviam Maria, seus pais, irmãos, primos e tios, até que uns tiros de revólver desferidos por um estudante bósnio-sérvio de 20 anos, a algumas centenas de quilômetros dali, mudou a vida de todo mundo.
O Império Austro-Hungaro -- alemão e magiar, como indica o nome -- dominava povos italianos e eslavos -- estes últimos, os eslavos do sul, ou iugoslavos. E vivia em queda-de-braço com a Sérvia, também eslava, porém independente. Em 28 de junho de 1914, quando o Arquiduque Francisco Ferdinando , herdeiro do Império, visitava Sarajevo -- cidade da atual Bosnia-Herzegovina, na época sob seu domínio --, foi assassinado, juntamente com a esposa, pelo estudante bósnio-sérvio Gravilo Princip. A Áustria culpou a Sérvia e, viu no incidente uma oportunidade de acerto de contas: um mês depois do atentado, e após um ultimatum impondo condições inaceitáveis, invadiu o país eslavo. A Rússia, por ser aliada da Sérvia, declarou guerra à Áustria. A Alemanha, aliada da Áustria, declarou guerra à Rússia. A França, aliada da Rússia, declarou guerra à Alemanha. E a Inglaterra, aliada da França, veio em seu socorro. Pronto, os tiros do jovem Princip deflagraram a tragédia.

Cenas do atentado: O Arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa, em 28 de junho de 1914, saindo da prefeitura de Sarajevo para seu último passeio; Gravillo Princip sendo preso e conduzido pela polícia; O casal exposto no cadafalco.(2)

A Itália não entrou na guerra logo de início. Ela era aliada da Alemanha e da Áustria desde 1882, mas, tinha pendências territoriais com o Império dos Habsburgos. Então, procurou fazer a sua própria guerra, vendendo caro sua adesão a um lado ou outro. Como a Áustria não aceitou entregar-lhe suas regiões de língua italiana, a Itália aderiu aos aliados, em maio de 1915.
A partir daí a vida de Maria e sua família começou a mudar. Os homens -- papai e tios -- foram convocados. Em casa permaneceram as mulheres e as crianças. Os serviços agrícolas mais pesados foram suspensos, os animais começaram a ser abatidos, para o consumo próprio ou para abastecer o exército. A pobreza e a fome foram se instalando.
Considerando o modelo de guerra ainda vigente o melhor campo de batalha ofertado para os dois exércitos era justamente a Friulli-Venezia Giulia. E foi por aí que os italianos iniciaram a ofensiva contra os austríacos: para o nordeste, em busca da ocupação dos territórios de língua italiana. De início avançaram; porém, tal como no front ocidental, logo as coisas estagnaram, as trincheiras foram cavadas e, cada palmo de chão passou a ser conquistado à custa de muitas vidas. Dois anos de intenso conflito, e os italianos optaram por manter-se na defesa das posições ocupadas. Os aliados, que insistiam na manutenção da ofensiva italiana para enfraquecer os países germânicos no front ocidental, castigaram a nova estratégia defensiva retirando sua ajuda em armamentos. Por seu turno, a Áustria aumentara a pressão sobre a Alemanha para que a ajudasse na ofensiva. O resultado foi uma ofensiva das forças alemãs e austríacas sobre o elo mais fraco da defesa italiana, impondo a esta a fragorosa derrota de Caporetto e a retirada trágica do exército italiano em outubro de 1917. A Província de Pordenone sempre esteve no caminho: tanto no avanço, quanto na derrocada.


Derrocada militar após Caporetto


População fugindo do avanço alemão

www.youtube.com/watch?v=AxJ272JzQ90
Sequencia do filme "Adeus às Armas", de 1957, com Rock Hudson, Jennifer Jones e Vittorio de Sica, mostrando a retirada de Caporetto.


A esta altura, as mulheres da família haviam morrido na epidemia de tifo, restando apenas as crianças. Minha avó Maria, com apenas quatorze anos, era a responsável por sete irmãos e sete primos com idade abaixo dela. A única ajuda com que contava era a irmã Amália, um pouco mais nova. Parentes e vizinhos, em grande maioria, retiravam-se caoticamente junto com o exército, temendo o avanço alemão. Os que permaneciam em suas casas, tinham sua própria luta pela sobrevivência. Os invasores sempre têm chifres, orelhas pontudas e pés de cabra. Mas, a maior ameaça, nas derrotas e retiradas, são os desertores.
Sem produção agrícola, com o comércio em desordem, um dia as provisões se esgotam, mesmo se racionadas. Quando isto aconteceu, as crianças juntaram os últimos restos de fubá da despensa, com alguns ingredientes que sobraram, e Maria fez uma suculenta polenta, colocou no centro da grande mesa de madeira, e todos sentaram-se à volta, olhares famintos, esperando que esfriasse o suficiente para ser consumida. De repente, a casa é invadida por dois desertores, igualmente famintos, cobertos de barro, gritam e ameaçam as crianças com suas armas, pegam a polenta como podem e continuam sua fuga inglória O desespero tomou conta das crianças famintas. As grossas tábuas do piso da despensa cobriam um pequeno porão para onde escorriam as perdas dos produtos armazenados. Era o último recurso. Havia uma abertura por onde apenas o mais magrinho de todos conseguia passar. Depois de vários desmaios, ele conseguiu recolher uma quantidade suficiente de farelo que, uma vez separado precariamente da poeira, forneceu uma polenta muito menos apetitosa do que a perdida.
Tempos de penúria. Poucas vezes lhes era permitido serem crianças; como quando à noite se debruçavam nas janelas para observarem os clarões distantes da artilharia: primeiro a nordeste, depois ao norte e, finalmente, a oeste. Diariamente as duas irmãs deixavam os menores no pavimento superior, os mais velhos controlando os mais novos, e saíam pelos arredores em busca do que encontrassem. Certa vez, retornando com a noite iniciada, entraram em casa e sentiram como se tropeçassem em sacos de roupas. Andaram mais um pouco e notaram que pareciam pessoas deitadas; ouviram imprecações numa língua estranha. Apressaram o passo, alcançaram a escada e refugiaram-se em seus quartos. Quando o dia amanheceu, desceram e constataram: um regimento alemão acampara em sua casa! Os temidos diabos verdes estavam ali, na sala, na cozinha, por tudo. Aos poucos foram vendo que não eram nem verdes, nem diabos. Logo veio o intérprete do destacamento avisá-las que a casa e a fazenda haviam sido confiscadas pelo exército alemão, mas que não se preocupassem. Mantivessem, para segurança de todos, as crianças pequenas afastadas das armas e demais aparatos bélicos, que brincassem em locais onde não atrapalhassem a movimentação das tropas, e eles os protegeriam e alimentariam enquanto ali estivessem. Os dias até melhoraram com a fazenda transformada em quartel alemão; se é que existem dias melhores que outros numa guerra.


Avanço dos exércitos alemão e austríaco - mudança da linha do front. O ponto vermelho é a casa da minha avó.


Houve sustos, neste período: afinal, não se consegue transformar uma guerra em veraneio. Como na noite em que fizeram uma comemoração qualquer entre os soldados, da qual as crianças participaram e, quando se recolheram, Maria e Amália, que dormiam na mesma cama, notaram um vulto que lhes aparecia do lado dos pés. De imediato acharam que era o pai delas; possivelmente morto em combate e tentando avisá-las. O vulto insistia em aparecer, como alguém que se levanta e torna a abaixar-se; elas acenderam uma vela e deram de cara com um soldado alemão. Minha avó apanhou uma vassoura e dá-lhe bater no rapaz, que tentava esquivar-se ou aparar os golpes com os braços gritando: "perdon!perdon!"; até encontrar com dificuldade a porta e precipitar-se escada abaixo. Elas se trancaram, choraram, rezaram, até se acalmarem e dormir. No outro dia, assim que desceram foram abordadas pelo intérprete que pediu-lhes desculpas, informando que o soldado bebera um pouco além da conta, errara de direção e acabara em seu quarto. Se elas quisessem, poderiam dar parte ao comandante, mas ele solicitava que o perdoassem e deixassem por isso mesmo. Vendo, ao fundo,o rapaz cheio de hematomas e olhar súplice, perdoaram o ocorrido.
Noutra ocasião, os alemães receberam informação de sua Inteligência de que aviões aliados iriam bombardear seus acampamentos. Rapidamente cortaram todas as amoreiras e mais algumas árvores da fazenda e cobriram toda a casa, construções auxiliares, barracas de campanha e equipamentos bélicos. Mal terminaram, surgiu o pequeno avião: a bomba foi lançada a mais de duzentos metros da casa, formando uma enorme cratera, que se tornaria atração turística por muitos anos. Não se sabe se o que funcionou foi a camuflagem dos alemães ou a precariedade da incipiente guerra aérea. Salvaram-se da bomba, mas à custa das amoreiras, inviabilizando a retomada da produção de seda.
O avanço das tropas alemãs e austro-húngaras foi contido pelos italianos no Rio Piave, poucos dias depois da queda e da retirada de Caporetto. A guerra nesta frente entrou, então, na mesma indefinição que ocorria na frente ocidental, com enorme sacrifício de vidas por ambos os lados, mas sem avanço territorial. Em junho de 1918 os alemães tentaram definir as coisas com uma ofensiva que durou oito dias e terminou com a vitória dos italianos. A partir daí, os italianos tomaram a ofensiva e em outubro iniciaram a batalha de Vitório Vêneto, derrotando as forças alemãs-austríacas e vingando Caporetto. A Itália, praticamente, decidiu a guerra, pois com o esfacelamento das forças das potências centrais na frente italiana, a Áustria viu-se obrigada a assinar um armistício com os aliados, ensejando a estes a invasão da Alemanha pelo seu território. Esta possibilidade convenceu a própria Alemanha a assinar o armistício em 11 de novembro de 1918, terminando o conflito que passaria à história com o nome de Primeira Grande Guerra.
Ao retirar suas tropas da casa dos De Carli, o comandante alemão pediu a Maria e às crianças que posassem para uma última foto, dizendo: "Se eu chegar vivo em casa quero mostrar à minha esposa o que mais me tocou nesta guerra: uma criança cuidando de quatorze crianças!"
Cerca de dez milhões de mortos custara o desatino. Porém, a lição ficaria, diziam políticos e intelectuais, nunca mais haveria guerras. Não? Vinte anos depois teria início outra, a Segunda, que terminaria com mais de cinquenta milhões de mortos!
Mas, por ora, a paz era festejada. Os exércitos desmobilizados. Os aliados, nas reuniões de Paris, obrigaram a Itália a diminuir suas pretensões em favor da Sérvia; mesmo assim, incorporou o Trentino e Trieste ao seu território. Os homens retornavam em grupos às suas casas. As mulheres e crianças ficavam nas portas e portões ansiosas, esperando noticias. Maria, seus irmãos e primos, viram um grupo de homens conversando animadamente enquanto caminhavam pela Via Racolta. No portão da pequena propriedade, um deles, barbudo, cabeludo e sujo, separou-se dos demais e entrou. As crianças se encolheram com medo, traumatizadas com as experiências dos últimos anos. Um deles gritou: "É papá! É papá!" Correram todos ao seu encontro, parando ante seu enfático aviso: "Párem, não cheguem perto, estou cheio de piolhos! Preciso de banho e tesoura, depois abraços!"
Neste ponto, a história de Maria desliga-se da história geral, tornando-se apenas uma saga familiar.
Os dias se passaram, a terra e a economia arrasadas ofereciam poucas perspectivas. Meu bisavô casou-se de novo, nasceu-lhe mais um filho. No início dos anos vinte resolveu tentar a sorte no Brasil. Numa fazenda de Vila Bonfim (hoje Bonfim Paulista), em Ribeirão Preto, Maria conheceu Pietro e casaram-se em outubro de 1923. Ela e sua madrasta engravidaram quase ao mesmo tempo. Ela, esperando minha mãe, Virgínia, e a madrasta, esperando o tio Giuseppe, último filho do meu bisavô. Mas, a madrasta não se acostumou no Brasil, onde seu bebê nascido na Itália, Marino, contraiu paralisia infantil. Então, antes mesmo do nascimento da minha mãe, meu bisavô e os demais filhos voltaram para Itália. Como bom italiano, saiu de cena dramaticamente, dizendo à minha avó: "Quando partirmos, pode imaginar que estarão passando dez caixões por aquela porta, porque nunca mais nos veremos!" Não foi bem assim. Amália também havia se enamorado de um imigrante: Agostinho Amadio. Ela seguiu para a Itália com a família, esteve por lá uns nove anos, ajudou a criar os dois menores, teve vários pretendentes, mas voltou para o seu Agostinho. Casou-se por procuração, uma vez que naquele tempo mulher solteira não viajava sozinha.

Enfim, Maria de Carli e seu esposo Pietro Vendrame (conhecido como Pedro Vendrame, tal como nos documentos brasileiros), em foto "oficial". Eles passaram a maior parte de suas vidas em Birigui-SP, tiveram sete filhos e muitos netos. Foi homenageada pela Câmara de Vereadores com seu nome em uma rua da cidade: no bairro Residencial Pedro Marin Berbel, uma rua antes denominada "Marginal 2", passou a chamar-se "Rua Maria de Carli Vendrame". Grato pela homenagem, senhores vereadores. (3)



(1) Conforme a publicação "L'agro pasianese in una cronaca del 1912", de Emanno Contelli, Edizioni La Quercia, 1982.
(2) Todas as ilustrações sobre a guerra foram retiradas da publicação "História do Século XX", Abril Cultural, 1974.
(3) Antiga foto do acervo familiar.

P.S. De Carli Antonio, acompanhado de sua segunda esposa, Pilot Albina, mais os filhos Maria, Domenica, Amelia, Tereza, Adele, Antonio, Rosa, Umberto, Primo, Irma, Secondo e Marino, mais o irmão, De Carli Lorenzo, embarcaram no vapor "Príncipe de Údine", em Gênova-Itália, em 27 de maio de 1921, desembarcando em Santos-Brasil em 13 de junho do mesmo ano. Passaram pela Hospedaria do Imigrante, em São Paulo, que os encaminhou para a fazenda Pau Alto, de propriedade de D. Iria Alves Ferreira, em Vila Bonfim, Ribeirão Preto, onde se instalaram no dia 15 do mesmo mês. Retornou à Itália no segundo semestre de 1924, deixando no Brasil apenas a filha Maria.